Papo Na Cafeteria: Uma História de Vida e Morte da "Literatura Feminina"

Clarice Lispector dizia: 'Quando escrevo, não sou homem nem mulher. Sou homem e mulher'". 

O que podemos considerar Literatura Feminina? A literatura escrita para, por ou sobre a mulher?

Independente do lugar que nos é dado na literatura atualmente, as discussões de gênero atingiram nosso meio em cheio e já podemos ouvir os ventos da mudança soprando.








Olhando para trás, observamos que desde os primórdios da literatura, a mulher não teve outro espaço nela se não como musa, e quando esta se encontrava no cerne do poema ou prosa, por diversas vezes foi erroneamente retratada com uma fragilidade excessiva, romantismo exacerbado e aquele toque de submissão peculiar.

Leitoras, quando alfabetizadas, alimentavam esse injusto mercado, aplacando a arte do
ócio com boas doses de leituras, mas por vezes, eram proibidas de ler autores um tanto polêmicos como Eça de Queiroz.
Quando eram elas as autoras, muitas usavam de pseudônimos masculinos para sobreviver no mercado editorial e conseguir exercer seu dom sem julgamentos.

E então chegamos aos nossos polêmicos dias.

A literatura já era território masculino muito antes dos gregos. O que não é de se surpreender né, afinal, até o direito de estudar nos foi negado por muito tempo. Aqui no Brasil, as mulheres só puderam frequentar a escola em 1827 e mesmo assim nada de universidades. Apenas em 1879  conquistamos esse direito e ainda assim a contragosto de muitos, que as mulheres que iam para as universidades eram vistas com péssimos olhos.
Por mais inacreditável que pareça, ainda encontramos lugares onde a proibição existe. Que nos diga Malala, a jovem paquistanesa que luta pelos direitos da educação das mulheres.
Com um histórico desses, fica fácil deduzir o motivo da falta de representação na literatura.

Recentemente, para ser mais precisa no ano passado. Após o Festival Literário de Paraty, um grande debate foi levantado contra o uso do termo " Literatura Feminina ".
Isso porque o termo já vem carregado de preconceito, além de levantar questionamentos como : Literatura tem gênero?. Em minha leiga e humilde opinião. Não!. 

A literatura foi feita para seres  humanos e pelo menos assim deveria ser entendida. Mas parece que todos temos um bichinho chato que nos morde, o bichinho do rótulo. Amamos rotular tudo. Aquilo é bonito, aquilo é feio, aquilo é coisa de homem...isso é coisa de mulher.
A nossa amada literatura não foge a essa regra absurda. A literatura romântica ou erótica, acaba se tornando livro pra mulher. Como se não houvessem mulheres que amassem o estilo policial, terror ou ação. E se algum homem é pego lendo obras com essa temática "feminina", olhos tortos e chuvas de intolerância lhe são ofertados
 
Uma autora não deveria ter sua obra avaliada por conta de seu gênero, uma leitora não pode se sentir limitada a um ou dois estilos literários e uma personagem não deveria reproduzir estereótipos femininos retrógrados e negativos.

Seria demais pedir uma literatura plural? Na verdade, essa literatura plural já existe, talvez sejamos nós que ainda insistimos em classificá-la. 
As barreiras de gênero vêm sendo quebradas e quando surgem debates como esses na FLIP, vemos que aos poucos as coisas vão se encaminhando.
São mulheres em busca de seu espaço no mundo dos livros, e exigindo que esse espaço também lhes retrate de forma mais fiel, afinal de contas, os tempos mudaram.

Não quero com isso dizer que não há espaço para a literatura romântica no atual mundo feminino. Quero apenas que este mesmo espaço seja mais diverso. O mundo, a sociedade e a História já nos provaram (e provam) que existem apenas duas forma de se conquistar espaços ou territórios: Guerra ou Conversa. 
Guerra dá muita dor de cabeça e ocorrem mais perdas do que ganhos. Então, nada mais natural para as leitoras que a conquista de nosso território se dê pelo diálogo. E que assim como foi na FLIP, que muitos outros debates surjam e que soluções se apresentem para que as mudanças se efetivem.

Que tal derrubarmos os muros da misoginia na literatura? Até lá, até que vai bem ir se inspirando ao som da linda e ideológica música do Scorpions "Wind Of Change", pois é com um debate aqui e acolá que os ventos da mudança vão soprando.



  
 





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