Obrigada, Henning Mankell!



Tudo aconteceu muito depressa. Ela ergueu um recipiente de plástico acima da cabeça e começou a derramar um líquido incolor sobre o cabelo, rosto e corpo. Passou pela cabeça de Wallander que ela devia estar carregando o recipiente o tempo todo. Pôde ver que ela estava aterrorizada. Olhos arregalados, olhava diretamente para ele. "Polícia!", gritou de novo. "Eu só quero conversar com você." No mesmo instante ele sentiu um cheiro de gasolina vindo em sua direção. De repente ela estava com um isqueiro aceso numa das mãos e o encostou no cabelo. Wallander soltou um grito enquanto ela pegava fogo. Paralisado, observou-a cambalear pela plantação enquanto o fogo tomava conta de todo o seu corpo. Wallander podia ouvir-se berrando. Mas a mulher em chamas permaneceu em silêncio. Mais tarde, não conseguia se lembrar de ter ouvido um grito dela.

Editora: Companhia das Letras
Edição: 2010
Páginas: 483


Quando Kurt Wallander presencia a autoimolação de uma desconhecida, sabe que sua atração irresistível por desvendar mistérios insondáveis arruinará os planos de férias com a nova namorada. Tudo piora quando a investigação desse suicídio ritual se revela infrutífera - o inspetor e sua equipe não conseguem nem sequer descobrir a identidade da garota - e outros crimes diversos acontecem, entre os quais o brutal assassinato de um ex-ministro da Justiça.
Só o olhar arguto desse investigador palpável - que evoca os protagonistas dos romances hard-boiled e foi considerado o melhor personagem da literatura policial recente por inúmeras publicações americanas e europeias - poderia vislumbrar a lógica por trás da escolha aparentemente aleatória das vítimas - nada as une fora o fato de que são escalpeladas por seu algoz -, tão díspares quanto um ladrãozinho comum, um bem-sucedido negociante de obras de arte e um político aposentado.


Resenha em homenagem ao autor, falecido há exatamente uma semana, no último dia 5 de outubro, aos 67 anos, em decorrência de complicações do câncer, contra o qual ele lutava havia alguns anos. Obrigada!



Mankell foi meu primeiro contato com o romance policial nórdico, muito antes de pensar em ler seus livros. Com seu personagem mais famoso – o inspetor Kurt Wallander – a série homônima da TV sueca chegou ao Brasil lá por volta de 2005 e me conquistou. Com episódios tristes, porém muito bem feitos, a série teve três temporadas, com diversas complicações de situações de fora das telas. Wallander é tão bom, arrisco dizer, tão carismático, que teve adaptação para a TV britânica com ninguém menos que Kenneth Branagh, ator, diretor, produtor... Não sei se as adaptações de ambas foram fiéis aos livros, pois só tive a oportunidade de ler O Guerreiro Solitário, mas creio que isso não importa.


A construção literária de O guerreiro solitário é bem diferente do que costumamos ver por aí e isso me surpreendeu (positivamente, claro), pois o assassino é apresentado logo nos primeiros capítulos e como são mais de 500 páginas, ficam as dúvidas no ar: quantos morrerão? Por que ele está fazendo isso? Como Wallander e sua equipe farão para pegar esse assassino? Tudo isso é respondido ao longo do livro e Kurt ainda vai ter que se desdobrar com seus assuntos familiares – Linda, sua filha, Baiba, sua namorada, e seu pai, com os primeiros sinais de Alzheimer, querendo fazer uma viagem à Itália. É muita coisa pro coitado, mas ele é sensacional e vai dar conta de tudo!

Todas as percepções de Wallander sobre sua equipe são registradas nas páginas do livro – a saída do chefe de polícia de Ystad, Björk; a possível chegada de uma chefe mulher e como os demais membros da equipe a receberiam; como seu convívio com uma policial novata, Ann-Brit Höglund, lhe fazia lembrar de seu antigo mentor, Rydberg e o quanto essa lembrança mais doía do que era grata; de conseguir lidar com o mau-humor de Nyberg, o técnico forense, quando ninguém mais conseguia e por aí vai. Tudo vai ficar na sua memória, leitor, simplesmente porque Henning Mankell tem o jeito certo de fazer isso. E você vai adorar.

Não deixe que nomes que não lhe são familiares lhe distraiam. Se possível, assista à série. Ela vai fazer que os personagens e os lugares fiquem mais vivos na sua cabeça e na hora de ler o livro, nomes não sejam suficientes para te atrapalhar, mas sim para te fazerem apaixonar...



Nem a crueldade e a frieza dos assassinatos deixam fazer com que o livro seja vulgar; de forma nenhuma! Ao contrário, a mescla da identidade do assassino com seu id, fazem com que compreendamos quais aspectos rituais ele quer abordar. Quase nada no livro é por acaso, nem a Copa do Mundo de 1994.


Outra coisa sobre esta edição é, como muitas outras, o cuidado com a tradução e com a revisão, pois são simplesmente perfeitos. Hoje em dia tenho me deparado com muitos, mas muitos erros de revisão e edição, mas esta está ótima. O trabalho de tradução é pouco reconhecido ainda no Brasil e muitos tradutores tem brigado com a questão dos direitos autorais da tradução. O responsável pelo trabalho de O Guerreiro Solitário é de George Schlesinger e, na minha opinião, está de parabéns.


Henning Mankell escreveu diversos livros com Wallander e outros tantos sem ele. Deixou sua obra, sua marca entre aqueles que admiram o bom romance policial. Viveu para ver sua obra se espalhar e pode usufruir do seu sucesso. Nos últimos anos, se dividiu entre a Suécia e Moçambique, onde fundou o Teatro Avenida e se dedicou bastante ao teatro.


Existem vários aspectos curiosos da sua vida, mas seu legado é o que nos interessa. Sobre a série sueca, um fato (nada agradável) aconteceu: a atriz Johanna Sällström, que interpretava Linda Wallander, havia sobrevivido ao tsunami na Indonésia em 2004, junto com sua filha, na época com 1 ano; em fevereiro de 2007 a atriz se suicidou, logo após o personagem de seu colega de série (Stefan Lindman, interpretado por Ola Rapace), haver se matado no último episódio da segunda temporada. Sobre Ola Rapace, ele foi casado com Noomi Rapace, atriz que ficou conhecida por seu papel como Lizbeth Salander, da trilogia Millenium, do também sueco Stieg Larson, mas aí já é outro livro, outro autor, outra história...

Abraços literários


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