As regras do romance policial - Ronald Knox


Regras foram feitas para serem quebradas, certo?

E sempre tem alguém que faz alguma coisa, vem outro e faz mais ainda, quem sabe numa tentativa de ficar na imortalidade literária, não é verdade? Foram dois senhores que tentaram fazer isso e, honestamente, parece que algumas destas regras não deram tão certo quanto eles imaginavam, enquanto outras ainda são bastante...atuais.

Vamos apresentar hoje um desses dois cavalheiros e falar dessas tais regras, que, apesar de parecerem estranhas, foram bastante seguidas e outras piamente quebradas.

The Detection Club
(um dos livros escrito em conjunto)
Na Era Dourada dos Romances Policiais, nos anos 1920-1930, foi criado o Detection Club (e que existe até hoje) Leia mais aqui (em inglês). Escritores diversos se reuniam para escreverem em conjunto, faziam rituais bizarros para abertura das suas reuniões e um deles, o teólogo e monsenhor inglês Ronald Knox, resolveu que estava na hora de por “ordem na casa” (bastante doutrinador, não?) e escreveu os “10 mandamentos” da literatura policial. 

A ideia era que o leitor se sentisse desafiado e as histórias ficassem mais intrigantes e também os autores pudessem elaborar mais as suas histórias. Apesar da obsolescência óbvia que atravessou quase um século, algumas regras ainda sobrevoam o mundo da literatura, sofrendo algumas adaptações. Muitos autores, como dissemos antes, quebraram algumas daquelas regras (e ainda as quebram), mas algumas andam bem atuais.

Vamos ver o que Knox estabeleceu para os parâmetros da literatura policial e o que podemos apreender delas:


A primeira delas, acredito que seja a mais utilizada até hoje: o assassino deve ser mencionado na primeira parte do livro, sem que seja dada uma grande relevância a ele, para que desperte a curiosidade do leitor.



A segunda já é um pouco mais controversa e diz: “Todos os fatos sobrenaturais são descartados como uma coisa natural”. O que eu entendo daí é que nenhuma solução de crime pode ser um fenômeno sobrenatural Hum...


A terceira fala sobre os cômodos da casa: Só poderia haver uma passagem secreta. Este foi um recurso pouco utilizado (dentre o que eu li), mas era mais recorrente naquele período clássico. Hoje em dia, um ou outro usa, mas de forma mais inteligente, renovada.

A quarta se refere aos venenos... Diz que os venenos desconhecidos poderiam ser utilizados, desde que no final a explicação científica não fosse muito longa. É fácil explicar rapidamente algo que não existe. E se quiser fazer uma explicação longa científica, não daria certo. É lógico que o autor é o dono do livro. E ele poderia decidir o que fazer ou não! Mas concordo que uma coisa que se tornasse maçante, me tiraria da leitura ou faria com que eu pulasse várias páginas...

Agora a quinta: nenhum chinês deveria entrar na história. Rá! Essa é esquisita mesmo! Na época existia um famoso personagem chamado Dr. Fu Manchu, criado por Sax Rohmer – que teve uma série de livros, filmes, quadrinhos – e essa precaução de Knox tinha mais em mente evitar o preconceito contra o povo oriental. Mais sobre o Sr. Fu Manchu, aqui

A sexta fala sobre sorte ou acaso. O detetive deveria ser inteligente e perspicaz, os grandes golpes de sorte que lhe davam soluções de mãos beijadas estavam fora de cogitação. Realmente, tenho que concordar com o monsenhor Knox. Ora, se fosse pra ter sorte, não precisaria ser detetive, qualquer um serviria. O que muitos autores romperam com essa regra em particular foram algumas causalidades, de por exemplo, entreouvir uma conversa fortuita, vir um papel que estivesse fora de contexto e coisas assim.

Quase no fim...


A sétima me parece absurdamente óbvia e acho que seria desleal com o leitor, mas...: o próprio detetive não poderia cometer o crime. Claro que essa regra foi desprezada, mas não posso comentar aqui para não dar spoiler.



Oitava também fala sobre pistas, onde o detetive não deveria seguir pistas que o leitor não entendesse. Fatal! Pra mim essa sempre acontece! Eu nunca entendo nada do que está acontecendo, até que aconteça!  (:P)


E vamos falar dos ajudantes nesta nona regra, dos coadjuvantes que fazem com que o gênio do super detetive sobressaia! Ele não deveria ter seus pensamentos escondidos e seu QI deveria ser um pouco abaixo do leitor médio. Percebemos isso em Dr. Watson e Capitão Hastings, mas não era (nem é) todo autor que usa esse personagem.  


E pra finalizar as regras de Ronald Knox, a décima fala sobre o recurso do gêmeo ou sósia, a não ser que a história assim permitisse, não deveria ser utilizado. Também nunca vi muitos deles por aí, apesar de terem sido sugestionados pelo menos uma vez (mais uma vez, sem spoilers)!


Podemos ver que estas regras, apesar de, à luz dos dias atuais, parecerem atrasadas, balizaram durante o século XX o romance policial e fez que muita gente boa despontasse no cenário e se mantivessem vivas ao longo de tanto tempo.

Caso queira conhecer mais sobre o trabalho de Ronald Knox e o seu legado literário, confira aqui e aqui


Na próxima lista de regras estranhas, vamos falar de uma pessoa mais controversa – SS Van Dine – e saber por que ele quis se estabelecer acima de Knox (fez vinte regras!) e quais foram elas.

Abraços literários!


Comentários
8 Comentários

8 comentários:

  1. Agatha CChristie segue quase à risca... rsrs

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  2. Já conhecia essas "regras", mas essa do chinês sempre me faz rir. Muito estranha, rsrs
    Uma com a qual eu concordo muito é a sexta. Pode ter um pouco de sorte, mas só um pouco.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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    1. Oi, Mariana . É verdade, a questão da sorte é importante. Tudo bem ter um pouquinho, mas se for tudo, que graça teria? Aí até eu escreveria um livro policial!
      Abs literários!

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  3. Pior que são essas regras (com suas exceções, claro) que fazem boas histórias.

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