Monteiro Lobato - Reflexões sobre o Racismo na Literatura



Um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan; tivéssemos uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar.
Monteiro Lobato


Chocou? Então seja bem-vindo ao clube. Não é de hoje que lemos ou vemos algo sobre as polêmicas declarações racistas de Monteiro Lobato, muitas delas refletidas em sua grande obra " O Sítio do Pica-Pau Amarelo".
Se você não sabia deste "podre" do grande autor de um dos nossos maiores clássicos infantis, vem com o 'Café' neste polêmico post, pois ao que parece, para o grande criador de Emília e Cia," sabugo de milho é gente, boneca de pano é gente...mas negro...ah...negro não era gente não".


Longe de querer promover um esculacho tardio ao autor clássico, ao escrever esse post, me pareceu interessante abordar esse tema que cada vez mais tem ganhado voz e espaço nos mais diversos setores da sociedade.
Bem sabemos que atos racistas não surgiram de ontem pra hoje, talvez em nossos tempos tenhamos uma maior dimensão da execução desse tipo de crime e suas consequências graças a rapidez com que um flagra se viraliza pela internet, os movimentos de minoria social e política estão pleiteando cada vez mais espaço e tudo isso se reflete na forma como vemos e entendemos o racismo nos nossos tempos, mas nem sempre foi assim.

Monteiro Lobato viveu no início do século XX, naqueles tempos novas teorias raciais surgiram e acabaram por embasar ideias eugênicas, como forma de rebaixar algumas raças em comparativo da raça branca.  Para este fim, as teorias de Darwin e tantos outros renomados cientistas foram exaustivamente utilizadas, uma delas a de um cientista italiano, a fisiognomonia, se tratava em acreditar ser possível definir a índole de uma pessoa apenas pela observância de suas características físicas, essas teorias reforçavam a ideia de se manter uma raça pura, advertindo sobre os perigos de misturas raciais.

Nos Estados Unidos, o racismo promoveu a segregação de negros e a proibição na realização de casamentos inter-raciais, aqui no Brasil , como não poderia ser diferente, o racismo foi mais velado. Existia a ideia de embranquecimento do país, brancos e negros podiam se casar, mas a intenção final era que com as mistura das raças, o embranquecimento do povo brasileiro seria uma questão de tempo.
A tela “Redenção de Caim” de Modesto Brocos (1895), aborda de forma crítica o fenômeno da busca pelo "embranquecimento" gradual das gerações de uma mesma família.

Mas onde Monteiro Lobato entra nessa história?, bem, como um intelectual da época, certamente ele estava acompanhando toda essa efervescência científica, e como um homem bem engajado na causa da raça branca pura - engajado mesmo, pois não são poucas as cartas que o autor escreveu à Ku Klux Klan mostrando seu total apoio ao movimento - não nos admiraria que ele usasse seu grande talento na escrita para disseminar seu pensamento, até porque todo e qualquer autor, coloca muito de si em suas obras.

Para o criador de Emília, a bonequinha tagarela, nem a segregação americana era eficaz e tampouco a miscigenação brasileira, ele acreditava em outro método de aplicação para suas fundamentações eugênicas, e esta foi explicitada em sua ficção " O Presidente Negro", no romance ele vê como solução, unir o sudeste e sul do Brasil à Argentina e Uruguai, para formar uma nova república, já o norte e nordeste seria entregue aos negros, índios e mestiços.

"A nossa solução foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O Negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável penhora de caráter".


O Presidente Negro

Seu Magnus Opus,  " O Sítio do Pica-Pau Amarelo", o clássico infantil que todo mundo leu na escola, se tornou centro de uma polêmica em 2010 devido a forma como a negra tia Nastácia é descrita em toda obra entre elas , "negra de estimação". Em 2012, os questionamentos em relação às obras do autor foram parar no STF, na tentativa de retirar os livros de Monteiro Lobato do currículo escolar. Até aquele momento, haviam apenas notas explicativas e a responsabilidade de esclarecer aos aluno sobre o tema, ficaria a cargo do professor, mas nada foi adiante.

Monteiro Lobato
Como Monteiro Lobato, houveram outros escritores que em suas obras ora eram racistas , ora machistas, e às vezes os dois, José de Alencar é parte desses muitos autores, mas será que podemos considerar Monteiro Lobato racista? 
Na época dele ele não era, tanto que tinha total liberdade para expressar seu descontentamento com a negritude alheia e ainda fazer parte de uma Sociedade Eugênica em São Paulo, a primeira sociedade desse tipo a existir na América do Sul, um pioneirismo que não nos dá orgulho, mas respondendo, em minha opinião, sim, claro que ele era racista, gente!...O homem mandava cartas pra uma organização que assassinava negros nos Estados Unidos, e ainda queria uma espécie de filial aqui no Brasil, querido...me ajuda a te ajudar...rsrs.

Em minhas pesquisas sobre o tema, li algo interessante sobre justificar os atos do autor em relação a época em que viveu, Joaquim Nabuco escreveu antes de Monteiro Lobato e era contra o racismo, então a época não é método de absolvição, mas torna-se passível de estudo para um maior entendimento de como funcionava a sociedade nos tempos de outrora, ou seja, a época permitia a Monteiro Lobato e outros serem racistas.

Como dividir o autor de sua obra?, alguns conseguem lidar bem com isso outros não, aqui não cabe defender uma censura aos livros de Monteiro Lobato, jamais apoiaria isso, as pessoas precisam ter acesso, precisam ler suas obras e conhecer, separar o homem do autor pode funcionar, mas cabe a cada um de nós saber o que passar para nossas crianças em relação aos livros dele. 

Meu conselho é ter os pés no chão, admirar sem esquecer que escritor também é gente, com erros e falhas, falhas bem graves até...rs, não incentivo uma postura radical de queima dos livros na praça, mas defendo uma postura madura ao lermos Monteiro Lobato, que saibamos que existe uma dualidade,  não tem como fingir que ele não existiu na história da literatura nacional, assim como do mesmo modo, também não se pode ignorar por completo suas lamentáveis ideologias.












Comentários
11 Comentários

11 comentários:

  1. Isso aí, Ivy! Excelente a sua postura! Todo mundo erra e o Monteiro não seria diferente!
    A gente pensar que ele fazia isso há cem anos, era ruim, tá. Mas pensar que tem gente que faz isso hoje em dia, aí sim é inaceitável!
    Bela pesquisa!
    Parabéns!

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  2. Adorei o texto. Temos que enxergar esse racismo "escondido" que existe em livros, filme, tv, discursos, etc. Parabens pelo artigo. Muito bom!! ;)

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  3. Acompanho a polêmica desde que ela começou em 2010, sabe eu aprendi a separar autor de obra, incluindo na música, se não teria que deixar de ler autores que gosto muito mas que tem uma postura machista como pessoa.
    Eu gosto de Monteiro Lobato, acho que ele ajuda muito a difundir o Folclore brasileiro e acho isso muito importante, é a nossa cultura. Não concordo com a visão racista dele mas abolir os livros também não é o que deve ser feito, o melhor seria que pais e professores orientassem as crianças sobre o certo e errado,e o que está nos livros não são a realidade.
    O problema é sempre os radicalismos, e quando parte para a censura só aumenta a curiosidade.
    Bom é isso ^^

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  4. Antes de tudo: amei o texto. Muito bom ler posts com conteúdo assim e que promovam a discussão.
    Obviamente é difícil não ficar chocada com isso, mas acredito que a época em que ele viveu explica muita coisa. Apesar de que Joaquim Nabuco fosse contra racismo e tudo mais, imagino que ele seria minoria, e que a grande parte pensasse como Lobato. Quando você cresce ouvindo que certa coisa é errado ou certo, é difícil mudar a mentalidade mais tarde... Sei lá, acho que nos dias atuais não seria assim...
    Quanto a abolir a leitura nas escolas, é um grande absurdo. Até porque revela uma parte de nossa história, acredito que uma breve explicação do professor já é suficiente para se entender o que é certo e errado.
    Abraços,
    Duda - www.mylittlewonderland.com.br

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  5. Em primeiro lugar, parabéns pelo texto.
    Gosto de Monteiro Lobato principalmente pela obra do Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas confesso que não sabia muito sobre o autor e fiquei chocada por essa postura racista dele.
    Separar o autor da obra.. ta aí algo que eu nunca pensei, não sei se consigo, é algo que vou ter que pensar muito e trabalhar em mim.
    Beijos.

    Li
    Literalizando Sonhos

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  6. Olá
    Eu gostei do seu texto, você soube expressar muito bem sua opinião, mas infelizmente o racismo ainda é comum na sociedade e não só aqui no Brasil, exemplo básico disso é o fato de que não vemos negros protagonistas de livros, filmes com frequência, quando você encontra é até um ponto positivo do livro, porque é muito raro.
    Mais uma vez Parabéns pelo post.
    Bjss

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  7. Oi, Ivy. você acredita que nunca tinha parado para pensar e observar isso! Meu deus! Percebo agora o quando era alienado, pois amava o Sitio. Com maturidade, podemos observar o quando deixamos passar algumas coisas importantes, não é! Tipo, essa. Nunca pensei que fosse realmente isso, sempre colocava a culpa na Emilia por ela falar tudo o queria. Uma boa analise! Parabéns!

    http://porredelivros.blogspot.com

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  8. Oi Ivy!
    Simplesmente amei seu post, a blogosfera precisa de mais blogs assim, que tragam assuntos que são realmente relevantes. Acho que não há dúvidas quanto ao racismo de Monteiro Lobato, mas como você disse, separar o homem do autor é a melhor opção. E principalmente, saber apresentar suas obras às nossas crianças, de maneira que fique claro para elas todos os conceitos errôneos que estão embutidos lá.

    B-jussss!
    http://www.quemlesabeporque.com/

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  9. Oii!!

    Confesso que fiquei realmente chocada com tudo isso! Não fui "obrigada" a ler Monteiro Lobato e logo nunca fui atras das obras, também era muito nova enquanto passava adaptação, então não me lembro de tudo isso.
    Gente, sim! Essas obras deveriam sair de circulação! Têm tantas liminares por ai para tirar obras que não contém nada demais e essa pode?
    Realmente, a época era totalmente diferente, mas uma coisa não bloqueia outra.
    Obrigada pelo post!!

    Beijinhos,

    www.entrechocolatesemusicas.com

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  10. Ivy, amei o seu post, ele foi altamente relevante e acho que todo mundo deveria ler o seu post, pois você fala muito bem e com certeza tem que separar homem do autor, já que as obras de Monteiro Lobato são muito importantes na nossa literatura.
    Acredito que só tem que ser bem trabalhado como apresentar as crianças.

    Lisossomos

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  11. Oi!
    Achei bastante interessante seu post, porque sinceramente nunac tinha pensado nisso, até porque não leio muito do autor, mas é importante essa abordagem que você fez, e realmente temos que separar o homem do autor, porque a escrita dele é boa, mas se aprofundarmos mais nisso, acabamos achando erros de mais nele =/

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