Entrevista com Eliéser Baco, autor de Cartas no Labirinto


Eliéser Baco, 37 anos, escritor com formação em Letras, atualmente trabalhando com revisão e preparação de texto, dá aulas particulares de produção de texto... enfim, vive o texto, a arte, a literatura. Embora só agora tenha lançado sua primeira obra (clique aqui para ler a resenha), vive neste mundo há vários anos, e tem uma infinidade de textos, especialmente em forma de prosa poética. Multifuncional que é, a bela arte da capa de seu livro, "Cartas no Labirinto", é criação sua também. Abaixo, uma breve entrevista com o autor.



Primeiro, apresente-se e fale um pouco de sua relação com a literatura.


Eliéser Baco: Bem. Sou curitibano, moro em São Paulo, perdi o sotaque, perdi a sanidade (risos). Hum, que mais, faço preparação de texto, revisão, dou aula particular de produção de texto... E minha relação com a literatura vem de muito longe. Tenho 37 anos, e desde muito cedo com livros entre os cômodos da casa, adorava ver as palavras e tentar descobrir o que poderiam significar. Pedia para minha irmã mais velha ler pra mim o que aparecia por perto, gibis, livretos, revistas, e ia selecionando o que queria que continuasse. Quando ela não tinha paciência, inventava histórias com tudo, móveis, coisas do lar, recortava revistas e quadrinhos variados e colava em outras folhas, fazia minha própria história. Quando comecei a ler, adorava, devorava os livros. Quando tinha uns doze anos mais ou menos, lia as redações que minha irmã fazia para o colégio, ela tinha 16 anos na época e eu ficava fascinado como ela sabia escrever redações muito melhor que eu. E comecei a querer escrever melhor. Quando por volta dos 13 ou 14 anos, li Álvares de Azevedo, fiquei fascinado. Inclusive aproveitei uma consulta médica para perguntar como eu poderia pegar tuberculose, para escrever melhor. (risos) Foi uma das situações mais engraçadas envolvendo literatura que aconteceram comigo. (risos)


E o médico disse como faria para pegar tuberculose? 

Eliéser Baco: Não. Ele disse apenas como se sofria, quais partes do corpo eram afetadas. Que não me ajudaria a escrever melhor (sorriso).


Quais suas principais referências? (não necessariamente literárias)

Eliéser Baco: Eu adoro várias coisas que se completam, penso. Adoro teatro, música, fotografia, cinema, dança, logicamente, literatura, filosofia, análise de discurso, tudo que me remete para algo novo e diferente, criativo, que eu possa mergulhar sentimento e sair renovado, quem sabe melhor. Então, dentro disso, fazendo uma lista curta... Eurípedes, Augusto Boal; música clássica, rock'n roll, blues, música popular brasileira; Sebastião Salgado, Helmut Newton; Truffaut, Bergman, Sofia Copolla, Scorcese; Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Clarice Lispector, Lígia Fagundes Telles, Faulkner, Hemingway, E.A. Poe, Baudelaire, Florbela Espanca, Drummond, Fernando Pessoa, Manoel de Barros, Paulo Leminsky, Dalton Trevisan. Lembrando que é uma lista mínima, está bem? (risos) 

Tudo bem, tudo bem...
Agora nos conte... Como foi o processo de escrita de seu livro? Várias personagens díspares foram colocadas numa mesma história, e funcionou. Foi muito difícil?

Eliéser B.: Eu sou bem chatinho com aquilo que escrevo, então, tentei o meu melhor, tentei criar algo que eu relesse depois de pronto, algumas semanas depois, meses, enfim, e ficasse bom aos meus olhos de leitor. Escrevi e reescrevi algumas vezes. Descartei bastante coisa. Foi complicado me desfazer de algumas ideias iniciais e principalmente na última reescrita. Mas, recompensador. A visão crítica da Jucimara Tarricone, ex-professora de uma especialização em literatura que fiz, foi fundamental. Ela se dispôs a ler e depois disso ficou combinado que me diria se iria escrever o prefácio ou não. Leu e pediu que eu melhorasse algumas coisas. E depois de alguns meses, ela releu tudo e aceitou fazer o prefácio. Esse corte que fiz, essa cirurgia final, deixou uma boa ideia algo melhor, e foi complicado mas também recompensador. As personagens eram de um jeito no esboço da história e algumas terminaram um pouco diferente do que eram lá atrás. Não existem heróis ou vilões nas personagens principais, ao meu ver. Existem personagens que fizeram escolhas e arcaram com isso. 


Sobre o mercado editorial na atualidade. O que tem a dizer? Há público para um livro como o seu, que foge dos estereótipos dos mais vendidos de hoje em dia?

Eliéser B.: É, então... Eu leio bastante, não só livros, mas também revistas, jornais, teses acadêmicas, sites, blogs etc, e estava atento ao que o mercado estava disponibilizando e o que estava sendo vendido aqui e fora. É uma indústria como qualquer outra nesses tempos. Então eu preferi procurar algumas pessoas que talvez acreditassem no que eu estava propondo. Eu sei que existe a preocupação com o nicho de mercado que as editoras querem atingir, o que é normal em um negócio atual. Quase todas me disseram "não". A grande ferramenta do "não" é o fator quantidade de páginas do meu livro, estilo, público que pode vir a ler e a questão do custo de produção que pode não se pagar, já que eu não sou conhecido. E então fica aquela questão do discurso que muitos editores têm né?! De acreditar na literatura, na poesia, e isso e aquilo... Mas na hora de tentar algo com alguém diferente, digamos assim, repelir pelo negócio em si. O que eu não acho insensato, pensando comercialmente, talvez só contrário ao discurso apaixonado, publicamente, de alguns. Ainda assim eu acho que exista público. Não para estar entre os mais vendidos, digamos, mas tem público. Percebo que existem muitas pessoas que gostam do que Jucimara Tarricone, Marcelo Nocelli e Fabiano Jucá escreveram sobre meu livro. E as mensagens que recebi de leitores mais maduros, no que diz respeito ao estilo de livros que leem, foi de que gostaram muito do estilão do Cartas no Labirinto. O que prova que é questão de espaço, de ter uma chance de mostrar algo que foge do que parece estar hoje na pauta principal do comércio de livros. Não julgo se é pior ou melhor, pois é uma sensibilidade muito pessoal, muito individual, mas que é diferente da maioria dos livros que constam na lista do mais vendidos por aqui, é. E entre duas editoras que publicariam, optei pela Editora Pasavento, mesmo pagando uma boa parte do custo da produção do livro, pois tanto Nocelli quanto Rennan Martens, os editores, foram muito sinceros comigo e acreditam no Cartas no Labirinto.  Aliás, sobre isso até, fico contente com certas mensagens que chegam. Soube pela EM Comunicação, uma empresa que está começando e para quem faço algumas colaborações de revisão e preparação de textos literários, que uma editora de fora do país fez contato com eles para conversar comigo sobre um possível lançamento do livro em outras terras. Tudo isso é muito bacana, muito estimulador. Mostra que existem pessoas atentas a todos os tipos de livros.   


Há algum nome na literatura moderna que te interessa?

Eliéser B.: Sim, tem sim. Existem alguns nomes muito interessantes para o presente e o futuro da nossa literatura. Eu tenho lido essencialmente os contemporâneos brasileiros de uns anos pra cá, até para continuar meus estudos, quem sabe. Como Chico Buarque e Dalton Trevisan já estão celebrados e conceituados há muito, principalmente Trevisan e, também como existem muitos outros já consagrados e mais velhos que eu que estão nas listas anuais dos maiorais no Brasil, me dou a liberdade de citar os mais próximos da minha idade. Não estão por nenhuma ordem específica, ok? Então: Daniel Galera, Santiago Nazarian, Simone Campos, Tatiana Salem Levy, Luisa Geiler, Ricardo Lísias, Marcia Barbieri... Tem muito mais, contistas, cronistas, poetas, que talvez em outro momento eu possa importunar e escrever mais sobre (risos)...  E só me alongando um pouco mais nisso, gostaria de citar alguns nomes que acredito que irão evoluir muito, que percebi muito talento: Clara Baccarin, Diego Moraes, Thais Lancman e Mauro Nunes. 


Quem sabe um dia eles leiam e queiram dar uma opinião sobre o Cartas no Labirinto, né? 
Eliéser B.: (risos). Aceito críticas e sugestões, o caminho é melhorar sempre. O importante é que eu adoro literatura, conversar sobre, adoro ler, escrever, e gostaria muito que as pessoas, de todas as idades, conseguissem equilibrar a vida tecnológica, com atividade física e a leitura. 


"Escrevi e reescrevi algumas vezes. Descartei bastante coisa. Foi complicado me desfazer de algumas ideias iniciais e principalmente na última reescrita." (Eliéser Baco)


                                                                    
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