Café com Crime: Autores que se aventuraram pelo romance policial – Parte Um – Autores de Língua Estrangeira

Naquele tempo fora do tempo, naquela desordem perplexa de sensações desconexas e atrozes, terá pensado Emma Zunz uma única vez no morto que motivara aquele sacrifício?
 Emma Zunz, in "O aleph", Jorge Luis Borges


Quando, como, por que e onde alguém decide escrever histórias policiais? Criar um mundo novo não é mais fácil do que andar pelos becos escuros do crime? Então, o que leva um autor a começar a escrever romance policial?


Como eu já havia dito em um post anterior, jamais me arriscaria a escrever um romance policial, pois acho que é uma coisa tão intrincada e bela que eu (acho que) não teria sucesso; nunca acerto os culpados e fico fascinada pela forma como o autor – qualquer autor – conduz o fio da meada da história e não deixa pontas soltas. Escrever em si já é uma arte e se nós – mortais – escrevêssemos romances cotidianos como as nossas vidas – seria, talvez, um pouco mais simples, uma vez que seria possível falar sobre as nossas experiências vividas e não sobre coisas a serem criadas (talvez somente algumas situações plausíveis), o que torna o trabalho de um escritor de romance policial, que não tenha uma experiência prática, uma tarefa hercúlea – lembrem-se que este é o meu ponto de vista, provavelmente eles não concordem comigo ou concordem mas o façam assim mesmo.

Então o que leva um autor a escrever um romance policial quando seu foco é outro? O desafio, creio eu. O fascínio por algo tão diverso e tão complexo pode ser um modo de testar seus próprios limites e conhecimentos. Alguns escrevem como se estivessem no futuro, outros, há vários séculos passados. Cada um com a sua dificuldade. Alguns dos escritores que serão citados aqui se sentiram tanto à vontade que escreveram (ou escreverão) vários livros do gênero. Para os amantes dos romances policiais é um presente, um prato cheio. Vão, escrevam e encham nossas prateleiras, nossos e-readers, tablets e celulares. Tomem nosso tempo com mais livros para ler do que tempo para fazê-los. Nós adoraremos. E nós os adoraremos!




No leme do navio rumo ao desconhecido mundo dos romances policiais, temos o capitão Umberto Eco. O italiano que é bem conhecido por seus livros de muitas páginas, não economizou no tamanho do seu primeiro romance policial escrito no início dos anos 1980, muito conhecido (muito também pela sua versão cinematográfica com Sean Connery) “O nome da Rosa”. Para os que ainda não tiveram o prazer de ler ou mesmo de ver o filme, eu recomendo que o façam imediatamente. Vi primeiro o filme quando ainda era adolescente (e depois outras vezes mais) e lembro de ter gostado bastante e juro que a cena da pegada na neve (não é spoiler) é uma das que mais me intrigava. O filme preza bastante pela investigação dos monges mortos misteriosamente em um mosteiro da Alemanha do século XIV. Já o livro é mais a cara de seu autor, com bastante pensamento filosófico e ponderando bastante as questões de semiótica das quais ele domina e das quais foi professor catedrático na Bolonha. Apesar disto, o monge William de Baskerville, que vem de outro mosteiro e, por ali passando, fica e soluciona tais crimes. Tem bastantes características de romances policiais e é bem gostoso de ler. Minha única crítica a este livro é o grande número de citações em latim que não são traduzidos (pelo menos não na minha edição), mas ao chegar ao final vi que elas eram desnecessárias para o entendimento do contexto. Mais à frente falarei mais um pouco sobre Eco e o Nome da Rosa.

Quem vem no posto de imediato no nosso navio é a inglesa J.K. Rowling. Depois de se tornar a mulher mais rica da Inglaterra vendendo Harry Potter aos borbotões, pensamos que a autora iria sossegar e curtir a vida com a família, mas o mosquitinho policial que viaja no porão do navio deu uma mordida em Rowling. Lançou “O chamado do Cuco” há alguns anos sob o pseudônimo de Robert Galbraith, mas rapidamente seu nome veio a público e ela assumiu ser Robert. Entretanto, continuará a lançar todos os livros da série – ela pretende escrever sete com o detetive Cormoran Strike – com o pseudônimo. Eu considero o livro como bom e acho que ela perdeu um pouco o jeito no meio do caminho, mas o reencontrou depois. Ainda não li “O bicho da seda” – segundo da série – e espero que a prática leve à perfeição. Mas creio que o sucesso de Harry Potter dificilmente será suplantado por Strike e Robin (sua assistente). Em muitos pontos JK se inspirou em autores clássicos de romances policiais e o detetive tem pontos em comum com a obra do escritor Dashiell Hammett “O falcão maltês”, onde Sam Spade também tem sua moradia em seu escritório e conta com uma assistente, por exemplo.

Borges e Bioy Casares
Com este navio, atravessaremos o Atlântico e chegaremos às águas platinas onde nos aguarda Jorge Luiz Borges. O autor era fã da dinâmica e da estrutura dos romances policiais e o fez mais do que criar um pseudônimo, ele criou um outro escritor. Na companhia de seu amigo Adolfo Bioy Casares, eles criaram Honorio Bustos Domecq, que escrevia contos policiais. Domecq é inclusive possuidor de uma biografia (!) e teve a publicação de diversos livros, na maioria de contos e até escreveu com outros autores.

Ainda sobre Borges e Umberto Eco, conforme o prometido, o italiano admirava muito o seu colega argentino e fez para ele duas homenagens no livro “O nome da rosa”, citado acima. A primeira fala de um personagem chamado Jorge de Burgos (vejam a semelhança dos nomes), que era cego, assim como Borges estava ficando ao longo da sua vida; a outra é a biblioteca que Eco descreve, que foi inspirada no conto “A biblioteca de Babel”, de Borges. Homenagens à parte, são dois escritores que admiro muito e que merecem!

Borges, antes da criação de Bustos Domecq, escreveu como ele próprio alguns contos policiais, de fundo denso e bem elaborados, como é o caso de “Emma Zunz”, que faz parte do livro “Aleph”, de 1949. O conto tem todas as características da escrita de Borges, sua poesia dura, suas formas elaboradas, tornando-o, apesar de curto e não-investigativo, em um drama cotidiano, um clássico. Para os aficionados pode não ser o suprassumo do gênero policial, mas é bastante intrigante.


E para finalizar esta primeira parte da nossa viagem com estes autores que nos mostram a cada dia que é possível se reinventar e sim, é possível escrever, ficaremos na companhia da nossa guia de viagens Nora Roberts, ou como é mais conhecida para o gênero policial, J.D. Robb. A americana, conhecida escritora de dramas e romances familiares e cotidianos, tem também um pseudônimo para seus livros policiais (além de outros para outros livros em outros países). Ela, que começou como autora de romances contemporâneos, deu à série “Mortal” uma característica de investigação com um toque futurista, uma vez que os crimes de cada livro se passam em meados do século XXI, mas não deixa de lado suas raízes e mostra ao leitor o lado romântico da detetive Eve Dallas, conduzindo em paralelo a evolução de seu relacionamento com seu marido na série. Até agora já foram 19 livros, tornando-a uma das mais prolíficas escritoras de gêneros diversos. Para ficar melhor, ela escreve de três em três livros (sambando de salto agulha!).


***BÔNUS***

1 - Agatha Christie dispensa apresentações, mas fez o caminho inverso dos autores citados acima... Criou um pseudônimo e escreveu romances em que nada tinham a ver com as mortes de seus livros mais famosos. Escrevia como Mary Westmacott.

2 - Arthur Conan Doyle não tinha pseudônimos, mas escreveu diversos títulos em que não figuravam seu Sherlock Holmes, mas aventuras de expedições científicas, como "O mundo perdido" e foi laureado pela Coroa Britânica com o título de Sir, não por esse excepcional trabalho, mas por um pequeno livro sobre a guerra dos Bôers, onde apoiava o governo na tal guerra.

Semana que vem continuaremos com o tema, abordando escritores de Língua Portuguesa.

Até segunda!


Abraços literários!


Comentários
10 Comentários

10 comentários:

  1. O Nome da Rosa eu já li 3 vezes e tenho um exemplar de capa dura que não troco por nada. A série Mortal é uma das minhas favoritas, amo Roarke e Eve. Agatha Christie sem dúvida é uma das melhores autoras do gênero, senão a melhor, já li inúmeros livros dela.
    Bjs, Rose.

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    1. Nossa, que sonho "O nome da Rosa" de capa dura. Eu nem tenho mais meu exemplar!
      Obrigada!

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  2. Como sempre, postagem adorável. Não dá para economizar em elogios para o blog, sempre com conteúdo de excelência, Humberto Eco é fabuloso, li, recentemente, uma ótima resenha do novo livro no blog Literasutra... Adoro o gênero Policial, gosto da escrita dos Argentinos e autor contemporâneo, me delicio com o Leonardo Nóbrega

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    1. Obrigada, Lilian!
      Eco é encantador mesmo!
      Abs literários!

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  3. Olaaa
    Adorei o post e esse gênero é muito bom ma leio pouco por falta de oportunidade. Espero ler com mais frequência.

    Beijos
    Reality of Books

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  4. Oi, tudo bem?

    Gosto muito do gênero, mas eu não saberia me aventurar na hora de escrevê-lo, hehe. Acho muito complexo. Admiro quem sabe fazê-lo, pois são muitas pontas para amarrar nas tramas. Estou lendo a série da J. K., estou adorando. Já li alguns de Sherlock Holmes e da Agatha. Tentei me aventurar em O Nome da Rosa, mas não consegui. Achei muito chato, não consegui terminar. Gostei muito da proposta do post! :)

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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    1. Nina, concordo plenamente. Escrever romance policial é para os escolhidos.
      Eu tb não me atreveria.
      E "O nome da rosa" tem que ser persistente, eu mesma pensei em parar, mas não me arrependi... só que quando apareceu o assassino e o motivo, eu larguei sem terminar... :(
      Mas vale.
      Abs literários!

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  5. Oie, tudo bom?
    Concordo quando você diz sobre a escrita de romances policiais. É um texto mais intrincado e inteligente, exigindo bem mais do autor. Preciso ler algo do gênero que foi escrito pela Nora porque só li romances dela até hoje.
    Agatha dispensa apresentações né? Essa mulher escreve bem demais.
    Beijos,
    http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Aline!
      Eu tb ainda não li nada dela, somente sinopses de alguns livros da série "Mortal", pq eles estão na minha lista, mas a lista é longa....rs!
      Se ler algo dela, me conte!
      Abraços literários!

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