Café com Crime: Um Assassinato Fresquinho e um Golinho de Humor...

O ventre da infausta jovem, cujo único pecado na vida fora o incontrolável fato de ser gorda, está rasgado de cima a baixo, expondo uma enorme quantidade de Pastéis de Santa Clara. Mais pastéis também cercam o corpo de Maria Auxiliadora. No lugar dos globos oculares extraídos com precisão, foram enfiados dois apetitosos Olhos de Sogra.
As Esganadas, Jô Soares




Quando tratamos de assuntos sérios, como crimes e assassinatos, somos sempre sérios, respeitosos, civilizados? Ou gostamos de tentar suavizar um pouco a situação e ver a coisa por outro ângulo?

Como somos seres humanos repletos de sentimentos variados, misturados por séculos de aprendizagem em nosso DNA de que a dor alheia deve nos ser simpática, que devemos ter o mínimo de respeito pelo morto e pela sua família, quando associamos crimes de assassinato ao humor, ao riso, à diversão, podemos ter um choque interno de como deveríamos reagir a situações como esta. Afinal nossa educação, com princípios religiosos ou não, nos diz que não devemos rir onde há um cadáver, não devemos falar mal dos mortos, blá, blá, blá...

Mas algumas pessoas resolveram debochar (no melhor sentido da palavra) e subverter esses paradigmas atrasados e se utilizarem da comédia para escreverem livros e contos da melhor qualidade para entendermos que, afinal de contas, aquilo é uma ficção, como eu disse no post anterior.


Em geral, associamos literatura policial leve e humor a livros infanto-juvenis, como o recém-lançado “A Fabulosa Morte do Professor de Português”, do Lourenço Cazarré. Quem nunca leu “O caso da Borboleta Atíria”, ou o clássico “O Escaravelho do Diabo” (transformado recentemente em filme), ambos da Lúcia Machado de Almeida? Ou ainda as obras do Marcos Rey, como “O Rapto do Garoto de Ouro”? Mas será que todo o humor dentro dos romances policiais fica restrito a este público. Acho que não...




O Jô Soares é um desses autores que, por ter tanta experiência no mundo do entretenimento, em especial na comédia, soube tirar proveito disso e escreveu dois livros com este tema: “O Xangô de Baker Street” (que comemora seus 20 anos em 2015) e “As esganadas”. Ambos ainda tem o bônus de te levar para um passeio pelo Rio Antigo (o imperial em “O Xangô” e o Rio “Cidade Maravilhosa” no período pós-Pereira Passos, já nos anos 1930), mas o mais interessante é como ele descreve, no meio de sangue, entranhas e coisas sinistras, eventos cômicos que te fazem esquecer até do tipo de livro que você está lendo. São sacadas geniais de humor, entremeadas com as que levam para o rumo da investigação, que a leitura se torna fluida, fácil de ler. 



Em “O Xangô de Baker Street” é fácil ver pessoas que se desagradaram dele, acho que muito mais por se tratar do Sherlock (e alguns puristas torcerem o nariz) do que pela trama do livro em si. O livro é engraçado e o filme também. Em “As Esganadas”, não há um detetive famoso envolvido, então a ficção rola solta, junto com os toques históricos que o autor tanto gosta.


Outra autora que se aventurou por um campo similar, apesar de não ter uma veia cômica tão saliente (faltou uma “latinidade” nela) quanto a do Jô, é a norte-americana Joanne Flukes. Seus livros lançados no Brasil parecem até ser de literatura infanto-juvenil, mas não o são. Caso você já os tenha visto e ficado na dúvida, acho que vale a compra. O primeiro é “O Mistério do Chocolate” e o segundo, “O Enigma do Morango”. A confeiteira-detetive Hannah Swensen é a protagonista que vai te deixar com água na boca com seus cookies. Ela percebe que o caminho é inédito (até onde eu saiba) e abre o filão. Mas parece que não teve uma aceitação muito boa por aqui. Existem outros títulos lançados, mas só em inglês. A autora ainda coloca receitas ao longo do livro, com dicas da “própria” Hannah. Dá vontade de sair e cozinhar!


Vejam, no caso do Jô os detalhes nojentos estão lá (como na citação de abertura do post - quando poderíamos pensar em "apetitosos olhos de sogra" no meio de um cadáver?), mas a compensação é grande com a comédia; no caso da Joannes, ela inclusive omite estes detalhes, falando superficialmente sobre pormenores das mortes. Todos os demais ingredientes (do crime, não da receita) estão lá, para quem quiser ver, mas geralmente a gente só vê no final (com raras exceções).


A literatura policial tem muitas direções diferentes e não vejo nenhuma delas como ruim; possivelmente muitos não gostarão dessa linha de romance e claro, cabe a cada um decidir o que quer e o que não quer ler. Mas que são uma beleza, eles são. Os autores deste tipo de literatura, em geral, só fazem coisas deste tipo. Dificilmente você encontrará autores clássicos (como Agatha Christie ou Conan Doyle) fazendo esse tipo de coisa em seus livros. A época era outra, a aprovação da sociedade era outra, enfim, o contexto histórico não serve de parâmetro). Essa é uma característica da segunda metade do século XX, que, após duas guerras, era necessário contemporizar um pouquinho e acalmar os ânimos em épocas de guerra fria.


Em uma entrevista recente que eu li com o Mário Prata, ele comenta que os autores nórdicos (os grandes escritores de literatura policial do momento) não tem nenhum senso de humor.  Mesmo em autores europeus de outros países, a gente sente uma descontração, mesmo quando a característica do livro não é essa, mas nos autores nórdicos (Henning Mankell e o Stieg Larsson, só pra citar alguns), tudo é tão frio quanto os países que eles moram. Mas são muito bons no que fazem e sua literatura é metódica, quase cirúrgica.


Estou terminando a leitura de “Morte no Teatro La Fenice”, da Donna Leon e em breve conto mais dele aqui pra vocês (porque eu estou adorando). Ela não é uma comediante, mas tem notas refinadas de um humor leve, que te tiram um pouco do clima pesadão da morte, do enterro, da tristeza. Nada é tão visceral e, apesar dela ser norte-americana, já mora há alguns anos na Itália e acredito que por conta disso sua escrita seja menos carregada de emoções (ou falta delas).


Quem quiser me dar mais dicas de romances policiais misturados com humor, por favor, não fique encabulado, ninguém vai rir. Afinal aqui ninguém morre de rir!


Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Ah, adoro os romances do gordo...
    Abraços,
    Kleiton
    http://kleitongoncalves.blogspot.com.br/2011/11/formula-do-gordo.html

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  2. Obrigada pelo seu comentário, Kleiton!
    Até à próxima!
    Abraços literários!

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  3. Post maravilhoso. Vc está de parabéns, gosto muito dos sua coluna.

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    Respostas
    1. Obrigada, querido.
      Sua força pra mim é fundamental!
      Beijos

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