Papo na Cafeteria: Deuses De Dois Mundos: Rompendo Paradigmas.



Deuses de Dois Mundos, ou DDM, como é carinhosamente chamado pelos fãs, figura na lista dos mais vendidos há algumas semanas. Sua posição derruba mitos, afronta o preconceito e a ignorância e chama atenção para o pouco espaço dado aos nacionais no Brasil. 


P.J.Pereira, é o nome da nova estrela do mercado de literatura fantástica. O autor estreou sua carreira na literatura com a trilogia: "Deuses de Dois Mundos", a primeira história de fantasia baseada na mitologia africana. Em um roteiro totalmente original que mistura de forma criativa ficção e realidade, P.J.Pereira, narra a trama em dois vieses, no primeiro, que se passa em uma África ancestral, Orunmilá, um poderoso adivinho, vê-se envolto em preocupações por não obter respostas ao jogar seus búzios. No segunda, um jornalista cético, morador de São Paulo, recebe uma missão dos orixás e sem muitas opções vê-se envolto com uma cultura e ritos que para ele são estranhos, já que não os compreende, tudo recheado com muitos conspirações e disputas de poder. E embora seja lançada em um país que tem em suas raízes uma gama infindável de elementos que compõem a diversificada cultura de povos africanos, a obra pode ser considerada ousada. Por quê? Vejamos.

  • Desmistifica a demonização fundamentada no pensamento colonial.

Orunmilá, Oxalá, Oxóssi, Exú, Xangô, Ogum, Oxum, Iansã, Nanã, Iemanjá, Ewá e tantas outras divindades são personagens da trama. Assustou?? Estranhou?? Palmas para você se não. Mas se a resposta foi: "sim assustei", saiba que essa é a reação comum. Veja bem, digo comum, não natural. Se é comum temermos o que não conhecemos, mais comum é demonizar e julgar aquele que se quer dominar, desa forma, povos escravizados tiveram sua cultura e religiosidade atacadas por seus dominadores. Vamos entender esse processo.

Ao longo de 350 anos, estima-se que tenham sido retirados da África 12,5 milhões de pessoas, sendo a América do sul a receptora de 95% deste tráfico. Só o Brasil, recebeu entre 1811 e 1870 o assustador número de 3,000,000 de escravizados em um processo de migrações forçadas que se tornou uma das maiores na história. Ao deixar para trás seu continente, homens, mulheres, crianças, não deixavam apenas sua terra, eram obrigados a deixar também seus hábitos, cultura, língua, religiosidade e obrigados assumir hábitos considerados "civilizatórios", "cristãos". Porém quando todos os elementos palpáveis que identificam são arrancados de nós resta-nos as crenças e rituais que nos representam, que alimentam nossa resistência. Na tentativa de evitar essa resistência os diversos elementos advindos da multiplicidade da cultura africana foram demonizados, proibidos. 


Você aprendeu na escola desde criança a mitologia grega, nórdica, mas nunca aprendeu nada sobre a mitologia africana. Aprendeu que temos referências da cultura greco-romana, mas pouco, ou nunca aprendeu em sala de aula que muitas das palavras, que usa, dos costumes que tem são herança dos povos que aqui foram escravizados. Aprendeu socialmente que todos os deuses cultuados nas religiões de matriz afro são demônios malvados. O mais absurdo é que a escravidão (nos moldes coloniais) foi extinta no Brasil há séculos, porém o pensamento colonial ainda se faz presente. Existe um preconceito infindo sobre a mitologia e religiosidade afro. Por essa razão, o livro de P.J.Pereira é ousado. O próprio autor contou em diversas entrevistas quantas vezes teve seu livro recusado sob o argumento de que "não havia mercado para uma história como aquela que queria contar." Essa frase por si só, já um grande indicador do preconceito derraigado em nossa sociedade, já que sempre houve espaço para autores que escreviam romances embasados na mitologia grega e nórdica. O livro Deuses de Dois Mundos ficou engavetado por dez anos.


Além de ser ousado, por trabalhar um tema que encontra tamanha resistência, o livro é um desmitificador. Através das linhas escritas por P.J.Pereira, é possível se encantar com as tradições africanas e desconstruir os estereótipos formados pela falta de conhecimento. Como cereja do bolo, o autor revelou em entrevista à revista Veja que o livro nasceu de sua própria falta de conhecimento no assunto.

Nascido e criado no Rio de Janeiro, cujas praias recebem centenas de oferendas para os orixás na virada do ano, PJ tinha aversão ao universo das tradições africanas. "Eu via como algo do demônio, horrível. Meus amigos e eu sempre dizíamos que no dia 1º de janeiro não se devia ir à praia porque tinha macumba." O preconceito só começou a ser questionado anos mais tarde, no começo dos anos 2000, quando o publicitário se mudou para São Paulo e descobriu que um de seus colegas de trabalho, Zeno Millet, era filho da Mãe Cleusa e neto da Mãe Menininha do Gantois, um dos terreiros do candomblé mais importantes da Bahia. "O Zeno é uma pessoa que eu respeito muito. Pensei: 'Se essa pessoa boa está envolvida com esse negócio, ou mentiram para mim a minha vida toda ou ele está mentindo agora'."

  •  Aponta o dedo em riste na cara do preconceito e traz informação.
Print de comentário na página do livro no Facebook
Ao trazer o tema à baila na literatura, Deuses de Dois Mundos aponta o dedo na cara do preconceito e diz: "posso assumir minha religiosidade". Muita gente que segue religiões de matriz afro sofre o peso do preconceito estabelecido pelo pensamento colonial. Em muitos casos a escolha precisa ficar velada, para evitar o olhar de esguelha, o afrontamento direto, até mesmo o cargo no emprego. Afinal o estigma lançado sobre as expressões culturais africanas, principalmente no quesito religião, faz daqueles que as segue  um ser tão domonizado quanto os deuses que venera. O livro trouxe essas questões para a roda de conversa, expôs o preconceito sedimentado na sociedade e pôs em discussão o sentido pejorativo e o estigma que acompanha os ritos de origem afro. Além disso, trouxe representatividade e valorização para os seguidores de tais religiões. 

Print de comentário na página do livro no Facebook
Outro importante mérito do livro é ser esclarecedor. O sucesso de vendas e a posição obtida na lista dos mais vendidos, demonstra que muita gente almejava por essa representatividade e tantas outras deseja satisfazer sua curiosidade sobre o tema.

As diversas culturas afro são baseadas na oralidade. Ou seja, não há registros escritos, são na verdade passadas de geração para geração através das histórias contadas oralmente, logo não há um livro sagrado que defina os parâmetros religiosos. Também, por ser politeísta existe uma gama de diferentes deuses, com uma uma hierarquia intrincada e complexa de ser entendida. Muitos livros já foram produzidos na tentativa de explicar essa estrutura divina de poder, mas convenhamos, mesmo que por curiosidade pouca gente se predispõe, em um primeiro contato, ir atrás de livros que falem do tema. É mais comum satisfazer tais curiosidade em conversa com algum amigo seguidor de tais crenças. A menos, é claro, se for um livro de literatura. Eis ai Deuses de Dois Mundos. O livro traz informação e a popularização do tema. É possível conhecer a mitologia africana, seus ritos e crenças, a história de seus deuses e melhor, humanizar seus seguidores.

Obvio que esta é uma sementinha lançada no terreno semeado de estereótipos e preconceitos, mas é de semente em semente que se substitui ervas daninhas por boa colheita. 

"Senti pela primeira vez, que entender o preconceito é uma coisa, e sentir a ofensa é outra. Para mim os livros deixaram de ser aventura para se tornar uma missão”. (Entrevista com o autor)

  • Chama a atenção para o pouco espaço dado a produção literária contemporânea Brasileira.
Como exposto na matéria da revista Veja, a obra de P.J.Pereira: "conseguiu derrubar a hegemonia dos estrangeiros no ranking, que não via desde fevereiro um autor brasileiro voltado para adultos". Algo que não nos surpreende, já que a muito temos observado e falado do assunto. O mercado literário no Brasil é encabeçado por títulos internacionais, e como já dito anteriormente em outras matérias aqui do blog, as vitrines de nossas livrarias, se expusessem seus livros com títulos originais, mais pareceria uma vitrine de livraria fora do país. Infelizmente.

Segundo a mesma matéria, no começo de maio, Paula Pimenta esteve na lista com o título
teen Cinderela Pop, e Chico Buarque, que permaneceu dez semanas no ranking com O Irmão Alemão  (Companhia das Letras), entre o final de 2014 e o começo deste ano. Antes destes, somente Eduardo Spohr e André Vianco, ocuparam tal posto recentemente. DDM segue neste seleto grupo pela terceira semana entre os dez livros mais vendidos no país: 5° no PublishNews, 5° no Globo, 5° na Folha, 8° na Veja.  A posição no ranking vendas deste pequeno grupo denuncia a falta de atenção dispensada aos autores nacionais pelas editoras que insistem em comprar Best Sellers internacionais, para garantir seus lucros sem correr riscos. 






Por todos esses méritos descritos acima sugiro Deuses de Dois Mundos para leitura, e espero infinitamente que ele traga luz e conhecimento para o ambiente hostil e radical criado pela ignorância que impera no que condiz à tolerância religiosa. Para conhecer mais sobre o livro acesse a página do mesmo na internet, onde você poderá baixar os primeiros capítulos do livro I e II, ou o perfil do livro no Facebook.






Comentários
6 Comentários

6 comentários:

  1. Gente, 12,5 bilhões é muita coisa!! Muita gente arrancada de sua terra natal e obrigada a viver em condições sub-humanas em uma terra desconhecida. Além disso, foram obrigadas a deixar de lado suas crenças e rituais. Essa é mesmo uma história que merece ser resgatada, e acho muito legal que a ideia tenha partido de um brasileiro. Adorei a proposta do trabalho com mitologia africana, já coloquei a trilogia na minha lista!

    Beijos,
    Fernanda
    www.oprazerdaliteratura.com.br

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  2. Oi Andreza, tudo bem?

    Não conhecia o livro, mas adorei a premissa e depois vou dar uma olhada em resenhas para saber mais detalhes da obra. Gostei muito do book trailer, principalmente por trazer uma tema original. Adorei conhecer mais da obra.

    Beijos
    Leitora sempre

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  3. Olá Andreza, eu não conhecia o livro, mas já me apaixonei pela historia e só do autor trazer a mitologia africana, o que eu nunca vi em nenhum livro, já me deixou mega curiosa para lê-lo <3 Vou adicionar essa trilogia a minha listinha de desejados *-*

    Visite "Meu Mundo, Meu Estilo"

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  4. Escravidão é uma coisa que nunca vai entrar ma minha cabeça... foi gente demais arrastada pra longe de sua casa e de sua cultura. Não vejo os deuses cultuados em religiões de matriz afro como demônios malvados não, mas não leria os livros simplesmente porque não é o tipo de leitura que me atrai.

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

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  5. Nossa, o livro ta na lista dos mais vendidos e eu ainda nem conhecia.
    Esse enredo parece ser muito rico e informativo, é essencial conhecer novas culturas,
    e a africana foi uma ótima escolha.

    Beijos.
    Leituras da Paty

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  6. Não sou de acompanhar a lista dos mais vendidos, mas normalmente eu já ouvi falar do livro quando ele chega lá hahah
    Mas não conhecia DDM. Não acho que ele fale sobre uma mitologia, e sim sobre uma cultura que é muito rica e que claro, ajudou a formar a nossa. Achei a proposta do autor bem ousada sim, é sempre bom pensar fora da caixinha, mas como pessoa pública, acho que ele deve pensar duas vezes antes de responder quem discorda dele.

    Beijiinhos ;*
    Andressa - Blog Mais que Livros

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