Café com Crime: Resenha: Relíquias, de Tess Gerritsen


Farejo no ar, tão facilmente reconhecido quanto o cheiro da areia quente, de especiarias perfumadas e do suor de cem homens trabalhando ao sol. Esses são os aromas do deserto ocidental do Egito, e ainda são intensos para mim (...) Já se passaram 15 anos desde que andei pela última vez naquele deserto, mas, quando fecho os olhos, em um instante encontro-me novamente lá, de pé na extremidade do acampamento, olhando em direção à fronteira líbia e ao crepúsculo. O vento, ao varrer o vale, gemia como uma mulher. Ainda ouço a batida das picaretas e o arranhar das pás, posso ver o exército de operários egípcios, ocupados como formigas multiplicando-se no sítio de escavação, arrastando seus cestos de gufa cheios de terra. Relíquias, Tess Gerritsen


Reliquias
Tess Gerritsen


Editora:Record
Páginas: 352  
Edição: 2008
Sinopse: A descoberta de uma múmia conhecida como Madame X, que esconde na verdade o corpo de uma mulher assassinada há pouco tempo, choca a comunidade arqueológica. A detetive Jane Rizzoli e a patologista Maura Isles se unem novamente para resolver o mistério. Elas se deparam com um assassino em série que simula rituais de povos antigos com suas vítimas, transformando seus corpos em verdadeiras relíquias. E, para complicar, ele parece ter desenvolvido uma fixação com uma jovem egiptóloga, Josephine Pulcillo, cujo passado misterioso pode ser a chave para as investigadoras encontrarem o criminoso.



Um bom livro!  

Este não foi o primeiro livro onde Tess Gerritsen colocou a enigmática patologista Maura Isles e a durona, mas simpática detetive Jane Rizzoli para trabalharem juntas, mas foi o primeiro que eu li e simplesmente adorei. Antes deste, a autora ainda lançou 6 títulos e mais 4 depois. Elas tem uma série na TV que leva seus nomes e está na sexta temporada.


De volta ao livro... Eu desconhecia a autora e havia visto a chamada da série na TV, e era só. Um dia vi “Relíquias” na prateleira de uma loja e o título me chamou a atenção; fui a ler a sinopse e me apaixonei. É claro que o fato de se passar dentro de um museu me chamou mais a atenção do que todo o resto (sou museóloga, logo sou suspeita... kkk). Mas aí quando eu li que era com a dupla, fiquei mais interessada ainda. Livros policiais que se passem em museus = perfeitos! Existem vários assim, pois creio que os museus ainda tenham (infelizmente) essa aura de assombrados, misteriosos, etc. Esse aqui não vai ficar de fora.

Achei uma leitura fácil, sem grandes reviravoltas, mas um livro agradável. Traz vários plots dramáticos* - Dra. Josephine Pulcillo, a arqueóloga/egiptóloga que faz os homens suspirarem, e seus mistérios; Dra. Maura Isles (apelidada de Rainha dos Mortos), a patologista e médica-legista e seus romances proibidos e por aí vai.

A autora conduz bem a história, sem que siga com muitos termos técnicos ou com detalhes que algumas pessoas poderiam considerar mórbidos. A história começa com uma situação inusitada: uma tomografia computadorizada de uma múmia. Isles está ali como convidada do Museu. A história se desenvolve naturalmente, sem necessidade de recursos que façam as coisas parecerem meio forçadas (é claro que essas situações até existem, mas é uma ficção e isso faz parte).

Gostei muito de ler aquelas páginas e aos poucos ver alguns segredos revelados – como eu nunca tinha lido uma história delas, não sei se antes a autora já havia contado sobre o caso de Maura Isles e seu pouco ortodoxo caso com Daniel Brophy (e sua “profissão”, digamos, peculiar...). Também tem seus momentos de suspense, mas nada que vá deixar ninguém sem dormir à noite! 

Os passeios em que somos levados pelo Egito, suas escavações, tudo ao que ele remete em seu passado tão distante e ao mesmo tempo tão real através das mãos de mulheres e homens que empregam seu tempo em descobrir mais de uma história ainda tão pouco revelada, me deu uma sensação de segurança, em saber que aqueles artefatos estão em mãos hábeis e competentes, além de muito apaixonadas e dedicadas. É um assunto que fascina muita gente, mesmo os que não são aficionados por história ou arqueologia. As múmias fazem parte do nosso imaginário desde sempre, com um caminhão de livros e filmes antigos que as retratavam como seres malignos, o que está longe de ser verdade...

Os personagens e as tramas são bem resolvidas, a autora não nos deixa com pontas soltas, sem respostas. Dar ao leitor todas as questões levantadas é um incrível mostra de respeito e consideração. Já li livros em que isso não acontecia e me deixou bastante frustrada, mesmo tendo gostado bastante da trama. Alguns personagens, mesmo menores, merecem ter seu destino revelado. Ainda sobre personagens, a quantidade é boa, suficiente para manter o leitor atento e não ter que fazer um mapa para lembrar de quem ela estava falando (fala a verdade, tem livros que eu fico perdida com tantos personagens e referências!). Não existem muitas locações e tudo se resolve em um campo espacial meio limitado, facilitando a vida do leitor.

Mesmo tendo uma presença menor na história de uma maneira geral, a atuação da dupla Rizzoli e Isles é fundamental para o clímax da trama. Isles é bastante perpicaz, apesar de ter em sua vida pessoal algumas questões pendentes. É parceira do policial Frost, que em determinado momento põe em risco a investigação, por causa de..., ah, não vou contar, né? Nada de spoilers por aqui!

A história se passa, em parte, dentro do Museu Crispin (fictício), em Boston. A boa descrição da autora torna fácil enxergar o museu como ela o descreveu – um prédio antigo, com elevadores que dão medo e exposição que pode dar um susto no visitante menos preparado. Como em toda ficção policial atual, os procedimentos técnicos não ficam de fora em detalhes e todos explicados na medida do possível. Na parte arqueológica não é diferente. Mesmo com as explicações da autora, acho a curiosidade muito saudável e uma visitinha ao “tio” Google por mais detalhes nos ajuda a manter a cultura geral em dia!

Em resumo: vale a pena a leitura e já estou querendo ler os demais da dupla (na ordem de lançamento, claro!!). Alguns livros a gente larga pelo caminho, mas esse aqui não é o caso.

Conhece mais algum romance policial que se passe em um museu? Indique pra gente! Eu vou amar!

Minha próxima leitura de livros policiais que se passam em museus é: "A sala dos homicídios", de P.D. James


Abraços literários e até à próxima segunda!



Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Oi Raquel tudo bem? Eu amoooo qualquer história que envolva arqueologia. Não conhecia este livro e já fiquei bem interessada. Parabéns pela resenha me deixou louca de vontade aqui de conhecer =D

    Espero ter a oportunidade em breve de conhecer esta história!
    Beijos,
    Joi Cardoso
    Estante Diagonal

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Joi! Tudo bem! Que bom que vc gostou da resenha! O livro é muito bom! Vale a pena! Alguns livros da Agatha Christie tem essas características, uma vez que ela foi casada por muitos anos com um arqueólogo (Max Mallowan). É só ver que vários títulos dela tem ligação com o Oriente Médio (Morte na Mesopotâmia, Morte no Nilo, Aventura em Bagdá, entre outros).
      Grande abraço!

      Excluir

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...