Café com Crime: O mordomo: culpado ou clichê?


Responda rápido, ávido leitor de romances policiais: quantos livros você já leu em que o mordomo fosse o culpado? Se você respondeu NUNCA, puxe a cadeira e peça para o seu mordomo te trazer um café e vamos falar de um assunto corriqueiro que tem raízes na literatura policial, mas há muito tempo não está mais presente nela: o clichê do mordomo!



O mordomo é o culpado

Trabalhador indispensável em casas de famílias nobres e abastadas do século XIX e começo do século XX, responsável por toda a ordenação da casa e empregados nas mansões presentes de livros e filmes dessa época, além de muitos outros lugares e épocas, o mordomo ganhou uma função extra nos clichês: a culpa.

Antes de irmos adiante na literatura, vamos fazer uma pequena pausa para o significado da palavra clichê: significa algo repetitivo e sem originalidade. É lugar-comum dizer clichês para completar uma frase ou ideia. Por exemplo: o mordomo é o culpado!

Pense em todos os mordomos que você conhece: Alfred (Batman), Carson (Downton Abbey), Leopoldo (Tio Patinhas), entre outros tantos e em geral os mordomos que conhecemos são fiéis, leais, estão com a família desde sempre, são quase um patrimônio e tem o comando da casa na mão, não só dos empregados, mas conhecem os seus moradores de cor e salteado, às vezes até melhor do que eles próprios. Talvez por esse conhecimento tão grande sobre a casa e seus moradores é que tenham atribuído a eles tão notável adjetivo – o culpado.


Mas, então, o mordomo é realmente culpado?

Coitado... Sim e não! Na literatura do começo do século XX, mais precisamente em 1930 durante a “Era de Ouro” dos romances policiais, a norte-americana Mary Roberts Rinehart, no livro “A Porta Secreta” (em inglês, “The Door”), faz deste serviçal afamado um criminoso, apesar da frase célebre “O mordomo é o culpado” não aparecer no livro. Rinehart escreveu vários romances e contos, mas em nenhum outro o mordomo faz o vilão.


Mary Roberts Rinehart

Acredito que a fama da frase tenha vindo junto com a da própria autora, uma vez que ela foi mulher independente e com textos abrangentes (não escreveu somente ficção, falava em problemas do cotidiano feminino em jornais e chegou a falar sobre o seu câncer de mama em público, o que não era usual naquela época). Também já havia escrito, em 1908, “A escada circular” que foi um sucesso de vendas, mas hoje em dia é uma raridade, mesmo em sebos. Logo, em 1930, já era famosa, o que, na minha opinião, ajudou a colar nas mentes o clichê do mordomo e seguir até os dias atuais.

Apesar do livro de Rinehart ter colocado o clichê do mordomo em nossas mentes desde então, ela não foi a primeira. Em 1921, no livro “O estranho caso do Sr. Challoner”, de Herbert Jenkins, a arma do crime é disparada pelo mordomo. 

Em 1922, o inglês Alan Alexander Milne (também conhecido por AA Milne*) escreveu o romance “O Mistério da Casa Vermelha”, onde, após uma série de acontecimentos, o irmão do anfitrião morre em um quarto trancado. Após várias investigações, aparece o culpado... O MORDOMO.
A.A. Milne                                                                                                                              Herbert Jenkins
A treta

A história de vida de Rinehart é bem interessante. Ela não poderia de forma alguma ser chamada de convencional. Seus filhos haviam criado uma editora e precisavam de um best-seller para se firmarem. A mãe, que de tudo faz para ajudar seus filhos, escreve “A Porta Secreta” (1930) durante sua recuperação de uma doença, quebra seu contrato com a editora atual, a Doubleday Doran, e lança seu livro pela editora dos rebentos, a Farrar & Rinehart (que fechou em 1946, mas chegou a publicar os 10 primeiros romances de Rex Stout e seu detetive-glutão Nero Wolfe) e se tornou um sucesso. 

Até aí, tudo bem. Só que, em 1929 – ou seja, um ano antes do lançamento de “A Porta Secreta”, o renomado crítico literário SS Van Dine (pseudônimo de Willard Huntinton Wrighte também “pai” literário do detetive Philo Vance, lança “Vinte regras do romance policial” e a décima-primeira diz claramente o seguinte:


"Um serviçal nunca deve ser escolhido pelo autor como culpado. Isso implica uma questão nobre. É uma solução muito fácil. O culpado deve ser decididamente outra pessoa uma que esteja acima de qualquer suspeita.”


SS Van Dine


Ou seja, ela quebrou uma regra! Aí você pensa: regras são para serem quebradas!! Ok. Mas se pensarmos que ela era uma mulher em 1930 nos Estados Unidos, o foco é outro e o que acontece é uma enorme quebra de paradigma. Mary escreveria seu nome na história por ter sido “a revolucionária”. Se lermos as 20 regras de SS Van Dine, veremos que Agatha Christie , por exemplo, quebrou uma série delas e ainda assim fez o sucesso (e o faz até hoje), mas ela estava somente começando quando Mary Roberts Rinehart já era uma escritora famosa.
Mas isso é história para outro post...

O culpado é o mordomo” entrou em nosso imaginário com força há quase cem anos e até hoje usamos o clichê como bordão, sempre que aparece uma situação de crime (em geral que se envolva uma piada ou situação cômica, na ficção ou mesmo na vida real). Não aparece mais como culpado em romances policiais, mas na comédia ele ainda anda presente. Mesmo em situações em que não se trate de literatura policial, mas que haja um mordomo, ainda assim ele será inocente ou sequer suspeito.

A conclusão pra mim é a seguinte: o mordomo já foi culpado, sim, em algumas novelas, mas isso já faz tanto tempo (quase cem anos desde a última) que se perdeu no imaginário popular e ficou somente como uma lembrança da frase. O fato da autora – Mary Roberts Rinehart – não ser de grande sucesso nos dias atuais aqui no Brasil, colaborou para que este clichê ficasse sem referência bibliográfica e se propagasse por aí a torto e a direito. Eu particularmente perguntei a várias pessoas e nenhuma delas conseguiu se lembrar de ter lido algo semelhante.

E você, conhece alguma trama onde o mordomo tenha sido o culpado?

Abraços literários!

Até segunda!



AGRADECIMENTOS: Este post só foi possível com a ajuda do Fabiano Jucá, colunista aqui do blog e da Ana Paula Laux, grande conhecedora e idealizadora do site literaturapolicial.com. Obrigada!


*Nota: Milne não é dos autores mais conhecidos dentro da literatura policial, mas teve grande contribuição de uma forma mais inusitada: é ele o criador do ursinho de pelúcia Pooh e seu amigo Cristóvão, que mais tarde foram transformados em desenho animado pela Disney.
Comentários
24 Comentários

24 comentários:

  1. Ótimo post! Preciso de um mordomo urgente rsrsrs
    SUA ESTANTE

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  2. Oi, oi!
    HAUAHUAHAUAHUA No início fiquei meio dividido, mas após chegar ao final da leitura entendi um o que realmente estava acontecendo.A postagem foi bem interessante, adorei demais o texto, cheguei a conclusão que o mordomo pode ter sido culpado, pelo menos uma vez, adorei os livros citados durante os comentários e até pretendo ler alguns que estão mencionados aí, sério, adorei toda a trama investigativa do texto, parabéns!

    Beijos,
    Luan | http://umgrandevicioliterario.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Luan!
      Fico feliz que tenha gostado!
      Toda segunda tem post novo!
      Abs literários!

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  3. realmente, não tinha parado pra pensar nesse clichê... por hora, não me recordo de algum livro em que o mordomo tenha sido o culpado... a 'governanta' serve??? rsrs

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    1. Oi, Maria! Se a gente pensar nas "regras" do SS Van Dine, a governanta entra como serviçal e aí tb não poderia (até pq ela é um "mordomo de saias" nas casas que não tem o criado masculino).
      Toda segunda tem post novo!
      Abs literários

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  4. Nossa, que post diferente. Adorei ♥
    Coitado do mordomo, tem que passar por tanta coisa né? haha!
    Sabe que não me lembro de nenhum caso agora em que ele seja o culpado? Hmmm.
    Um beijo, www.prettythings.com.br

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    1. Que bom que gostou, Mariana!
      Como vc bem disse, coitado do mordomo! Já trabalha tanto e ainda ser culpado? Que chateação!
      Além dos livros que eu citei onde ele foi o culpado, tem mais um, mas eu só vou dar a dica: é de autoria de Sir Arthur Conan Doyle! (se não lembra, vai ter que ler tudo! kkk)
      Até segunda
      Abs literários!

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  5. Olá :) Adorei a postagem!!! :D Ficou legal, diferente e incrível! Nossa, já ouvi falar sobre isso, ou seja, "...no final o mordomo é "culpado", rs entretanto, nunca tinha lido nada parecido com seu texto, foi muito bom ler agora, :D rs tirou algumas dúvidas. rs Nunca li um livro com um final assim, sinto curiosidade, :o ops.. coitado do mordomo! Já estou querendo colocar a culpa nele. :/ kkkk :D Beijos!
    Blog: http://my-stories-wonderful-books.blogspot.com.br/
    Página: https://www.facebook.com/BlogWonderfulBooks

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    1. Que bom que vc gostou, Gaby!
      Abs literários!
      Até segunda!

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  6. Post muito interessante e diferente.
    Gostei muito do trabalho que você teve de pesquisa.
    Pior que essa ideia do mordomo ser sempre o culpado virou meio que uma regra. hehehe

    Lisossomos

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    1. Obrigada, Déborah
      Pois é, o mordomo virou clichê!
      Toda segunda tem post novo!
      Abs literários

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  7. Oi
    Eu escutei essa frase em algumas novelas e filmes, mas de fato nunca li um livro onde o culpado fosse o mordomo kkkkk mas em novela as vezes eles aparecem kkkkk.
    Amei o post, riquíssimo de informação. Só faltou o mordomo trazer o meu café (Ops, não tenho mordomo e odeio café kkkkkk)
    Adorei o post.
    bjs

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    1. Hahahahaha!
      Boa!
      Obrigada!
      Toda segunda tem post novo.
      Abs literários!

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  8. Muito bem escrito! =) Que o mordomo era o culpado eu já sabia, só não sabia o porquê. heheh. Brincadeira. Adorei as informações, sem dúvida valiosas para agregar conhecimentos à minha vida Literária. Sério mesmo!É muito bacana ver postagens com informações, novidades!

    Nota 1000! =)
    Abraços!

    Pensamentos Valem Ouro

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    Respostas
    1. Obrigada, Vanessa!
      Toda segunda tem post novo!
      Abs literários!

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  9. Que post maravilhoso!!!
    Olha, para ser sincera, não me lembro de ter lido um livro onde o mordomo realmente fosse o culpado, mas essa ideia de a culpa é sempre deles realmente está bem enraizada na nossa imaginação.

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    1. Não é mesmo, Mari?
      Obrigada pelo comentário!
      Abs literários

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  10. Olá!
    Eu não me lembro de ter lido nenhum livro em que o mordomo é o culpado. Coitado do cara, sempre sobrando para ele hahaha
    Adorei o post, muito legal!
    Beijão!

    www.livrosdajess.com

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    Respostas
    1. Oi, Jess.
      Obrigada pelo comentário!
      Abs literários

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  11. Oii!

    Sou uma grande fã de livros policiais e nunca li nenhum que o mordomo fosse o culpado hahaha
    Coitado do mordomo :/
    Parabéns pela post :)

    Beijos, Amanda *--*
    www.vicio-de-leitura.com

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  12. Olá!
    Posso confessar que estava totalmente por fora do contexto? hahaha gostei bastante do que li e achei interessante, pois assim como eu, pode ter outras pessoas que não conheciam esse ponto na literatura.

    Beijos
    http://www.breakingfree.blog.br/

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  13. Oii, tudo bem?
    Bom, parando para pensar, nunca li nada em que o culpado fosse o mordomo, mas até que eu gostaria. Um mordomo revoltado com algum dos patrões e resolve acabar com ele... haha.

    Beijos da Jéss ♥
    Brilliant Diamond | Fan Page

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  14. Oi, tudo bem?
    Coitado do mordomo, rsrs!
    Não me recordo de ler nada em que o mordomo fosse o culpado, agora quero ler hahaha!
    Bjs

    A. Libri

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