Café com Crime: Resenha - “Morte no Teatro La Fenice”, de Donna Leon

"Sua carreira foi muito longa, e tenho certeza de que ele incomodou muita gente durante esse tempo. Algumas pessoas não gostavam dele, sem dúvida. Mas não posso pensar em ninguém que pudesse querer fazer isso."
 Morte no Teatro La Fenice, Donna Leon


Morte no Teatro La Fenice
Donna Leon

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 336
Edição: 2000

Sinopse: Morte no Teatro La Fenice é o primeiro livro publicado no Brasil de uma série que já está no quinto episódio, com o charmoso comissário Guido Brunetti à frente das investigações em intrigantes histórias policiais. Brunetti, funcionário exemplar da polícia de Veneza, tem instinto infalível, agilidade na ação e gentileza no trato com vivos e mortos, características que o tornam um concorrente à altura dos grandes personagens no gênero.

Neste livro (Prêmio Suntory de melhor romance policial em 1992), Brunetti investiga o caso do grande maestro Wellauer, encontrado morto em seu camarim no Teatro La Fenice, logo depois de reger o primeiro ato de uma das óperas mais emocionantes que já foram compostas: La Traviata, de Verdi. O comissário se vê imediatamente confrontado com uma trinca que lhe dá o que pensar: uma jovem esposa, uma soprano extraordinária e mentirosa e um diretor de teatro homossexual que havia tido uma discussão com o maestro pouco antes do crime. Perplexo, Guido Brunetti se pergunta quem deteve para sempre o mais eloqüente gesto da música no Ocidente.
Eu não sou muito fã de resenhas, pois acabamos por passar a nossa impressão sobre o livro e influenciando quem vai ler, de uma forma boa ou não. Mas este tem algumas peculiaridades inerentes à minha vida pessoal, então vou tentar abordar este lado.
O livro não chega a ser uma obra prima da literatura policial, mas é envolvente, bem escrito e não deixa nenhuma ponta solta. A leitura é fluida em quase todo o livro e a autora é muito boa em descrever pessoas e lugares, sentimentos e sensações. Este foi o primeiro livro que ela escreveu (e o primeiro que eu li dela), então pode ser que nos próximos isso ainda seja mais aprimorado. Donna Leon é americana (nasceu em New Jersey e tem 73 anos), mas mora em Veneza desde os anos 1990, o que eu acho que lhe conferiu uma latinidade que ela não deveria ter antes (não tenho certeza, mas penso que seja dessa forma). O final do livro é surpreendente e, apesar de em alguns momentos eu ter intuído o que iria acontecer, os fatos que levam a ele haviam me passado despercebidos (pra variar, né?). Uma curiosidade sobre a autora é que, apesar de morar há muitos anos na Itália, não permitiu que seus livros fossem traduzidos para aquela língua. Vai entender...
Mas vamos ao que interessa – a resenha.
Lá em cima eu falei que haviam algumas peculiaridades da minha vida pessoal. E o primeiro ponto que me impactou e que quase me fez desistir da leitura foi o fato do morto ser um maestro. Meu marido é maestro e eu juro que fiquei um pouco impressionada com essa morte! Pensei e repensei se eu queria continuar (sou supersticiosa mesmo), mas, por fim, cedi à leitura e não me arrependi.
Outra superstição é que eu morro de medo de ir à Veneza. Não é segredo nenhum que a cidade está afundando ao longo dos anos, mas eu acho que ela vai afundar de vez quando eu for. Neurose? Pode ser, mas não vou pagar pra ver!!! Podem dizer à vontade que a cidade é bonita, que o patrimônio cultural é incrível, etc., etc., etc., mas eu não arredo o pé pra ir lá!
Sessão de psicanálise encerrada, vamos voltar ao livro.

A autora conduz muito bem todas as passagens dos camarins do grandioso Teatro La Fenice, famoso no mundo todo, os canais venezianos (não menos famosos) e seus vaporettos (os barcos a vapor que servem de transporte urbano). Sua descrição da arquitetura e do patrimônio veneziano, bem como das características psicológicas dos seus moradores são muito bem arranjadas, mesmo sem serem excessivas. Não percebemos o que está sendo feito, pois, como já havia dito, a linguagem é fluida e não rebuscada como o barroco veneziano.
Em alguns momentos parece que o dottore Brunetti é meio obtuso, meio lento e isso aparece muito na voz do seu superior o vice-questore Patta, superintendente que se preocupa mais com o aspecto político e o que ele vai falar com o prefeito e com as demais autoridades, do que com o trabalho em si (que sabiamente ele deixa pra Brunetti), mas Guido não é nada assim. Algumas cenas familiares de Guido e Paola (sua esposa de origem nobre), junto com os filhos são descritas e a gente passa a achar que a coisa está meio estagnada e fica fazendo força para encaixar aquele pedaço que se está lendo no restante da história, mas tudo tem seu lugar.  

O que dificulta a investigação é que parece que todo mundo detesta o Maestro Wellauer e entretanto, todos reconhecem o gênio da música que se perdeu. Quer dizer, tudo mundo tem motivo e oportunidade. Como sempre, são os detalhes que mostram o caminho da morte.
O humor é sutil, leve e o nosso Guido Brunetti (da polícia veneziana e não um amador) sabe usar seu charme para convencer testemunhas e às vezes passa por situações embaraçosas, quando as coisas não saem do jeito que ele imagina. Sua imaginação sobre algumas situações são simplesmente inacreditáveis. Apesar dos homens negarem, o dottore deixa claro que adora uma fofoca e não importa com quem seja e mesmo sequer que a informação não seja tão útil assim à investigação. Cabe lembrar que o livro foi escrito em 1992, por isso as referências à Segunda Guerra Mundial não são distantes quanto seriam nos dias atuais.
Todas as passagens descritas pela autora nos trazem a sensação do que ela escreve – o frio gelado, o sol frio de inverno, a neblina, o lugar sujo e fedido, tudo, tudo tem a medida do que é escrito. A trama tem poucos personagens, o que não chega a nos confundir e estes mesmos personagens tem traços marcantes de personalidade. E vemos ainda o desdém de alguns policiais italianos com as roupas de pouca grife que eles encontram durante as investigações! É de rir!

Vista aérea do cemitério
Outra curiosidade é sobre o enterro em Veneza. Eu nunca havia parado para pensar sobre o assunto, uma vez que a cidade é na água. Aí recorri ao “tio” Google, mas não consegui grandes informações, somente que San Michele (conhecido por Ilha dos Mortos) é situado em uma ilha e por isso os enterros são em paredes, como gavetas, o que já acontece em alguns cemitérios do Brasil. O transporte do caixão para San Michele também é feito de barco específico para este fim.

Fachada do Cemitério San Michele, em Veneza

Uma coisa que me chamou a atenção é que a primeira médica que examina o corpo do Maestro Wellauer percebe que ele foi envenenado por cianureto e ela diz que nunca tinha visto coisa assim ao vivo, só lido em livros da Agatha Christie! (De cara me lembro de dois: “Um brinde de cianureto” e “Café Preto”). Amei!

O final levou um tempo da minha mente para eu entender o que estava acontecendo. Mesmo com as provas ali na minha cara, eu custei para encaixar as peças. Ela praticamente havia gritado ao longo do livro e em certo ponto eu já estava desconfiada, mas sem saber o motivo. O que foi bom, pois trouxe certa surpresa.
Espero que os próximos sejam tão bons ou melhores que este. Seguindo a ordem de lançamento, o próximo será “Morte em terra estrangeira”. Vamos ver o que essa peça nos preparou.
Se alguém mais já leu este livro, compartilhe aqui suas impressões.
Abraços literários!

Até segunda!



 

Comentários
14 Comentários

14 comentários:

  1. Olá =)

    Ainda não conhecia esse livro e nem essa autora. Gosto de livros policiais e achei bem chamativa a sua resenha. Muito bem escrita. Parabéns. Ficarei de olho no livro.


    Beijos
    www.estantedarob.com.br

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    1. Olá, Roberta!
      Que bom que vc gostou!
      Bem interessante seu blog. Por aqui, todas as segundas tem um post novo na coluna!
      Abs literários!

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  2. KKKKK....Desculpa, eu ri muito com a forma que tu resenhou esse livro.
    Eu gosto muito de livros policiais e acredito que irei gostar desse também.
    Também tenho essas coisas de cidades que afundam, aqui no Brasil mesmo, praias que estão invadindo terras...eu hein...mas ainda viajo, só que só no Brasil...rsrs
    Parabéns pela resenha!!

    Beijos

    http://devoreumlivroeoufilme.blogspot.com.br/

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    1. Não precisa se desculpar!! kkkk!
      A gente faz pra ficar leve mesmo!
      Que bom que vc gostou. Eu tento ler os livros na ordem em que eles foram lançados, para ver como o autor evoluiu na escrita!
      Abs literários!

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  3. Oi. eu curti bastante o enredo do livro, inclusive saber que o final te surpreendeu, às vezes, quando já lemos muito, alguns livros não surpreendem mais... Como você, também não sou apreciadora de resenhas, mas eles em nada influenciam minhas compras...

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    1. Sim, Lilian. Alguns finais tem me surpreendido. Inclusive na resenha de hoje, Reconstruindo Amelia, eu tb me surpreendi com o final!
      http://goo.gl/id9YgG
      Dá uma conferida lá!
      Abs literários!

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  4. Oi Raquel!!!
    AMEI sua resenha, você me de deixou curiosíssima para conhecer a história, e olha que não leio muito policiais, até leio vez ou outra mas não é meu gênero preferido.
    bjs

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    1. Oi, Thais!
      Obrigada! Fico feliz em ter te influenciado bem assim!
      Quando ler, venha aqui deixar seus comentários!
      Abs literários!

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  5. Oi Raquel, tudo bem? Não conhecia a autora nem o livro, mas parece ser interessante, e que bom que mesmo com as suas peculiaridades em relação a história, você resolveu ler e se surpreendeu. Achei bem legal a ambientação em Veneza, e como a autora consegue nos fazer sentir o que está passando na história, é ótimo quando isso acontece.

    Beijinhos,

    Rafaella Lima // Vamos Falar de Livros?

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    1. Oi, Rafaella!
      Que bom que vc gostou!
      É verdade, é um livro que faz a gente se sentir lá e a atmosfera da cidade!
      Abs literários!

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  6. Hey! Achei a premissa bem interessante. Fora que suspense/policial são muito envolventes. Gostei bastante. Vou procurar

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    1. Oi, Ana!
      Esse livro é bem gostoso, vale muito a pena!
      Abs literários!

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  7. Hey! Achei a premissa bem interessante. Fora que suspense/policial são muito envolventes. Gostei bastante. Vou procurar

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  8. Olá Raquel,
    Gostei de verdade da sua resenha, mesmo vc não curtindo resenha tenho que te dizer que você nos apresentou uma senhora resenha.
    O livro parece ser realmente muito bom, mas infelizmente ele não faz muito meu estilo.

    beijos
    Mayara
    Livros & Tal

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