Café Amargo: WATTPAD - A Treta Recomeça


O Wattpad é provavelmente a primeira plataforma de livros online que realmente se popularizou, em um sentido amplo. Temos vários sites, como o Clube de Autores, onde os escritores também publicam seus textos (e eventualmente vendem suas obras), mas a dinâmica entre leitores e escritores é falha e sisuda, e a repercussão das obras é praticamente nula. O que torna o Wattpad uma plataforma tão bem sucedida, então?



Primeiro, a questão da usabilidade. O site é intuitivo e fácil de usar, além de gratuito. Além disso, é um aplicativo que roda em dispositivos móveis, o que aumenta consideravelmente o número de pessoas conectadas. Somos uma sociedade conectada, e isso é inescapável. No Wattpad, qualquer pessoa pode ser tornar "escritora". Os textos vão sendo jogados ali, sem nenhum critério (o que é bastante notável), e é o crivo dos leitores que determina se a obra é boa ou não. Só que esse julgamento é absolutamente subjetivo. E está condicionado a regras outras que não necessariamente às da qualidade literária. Claro que podemos encontrar de tudo ali. Primeiramente, são diversos gêneros trabalhados, para todos os gostos. Alguns são mais populares, especialmente os romances glicosados. O fenômeno não é novo. Apenas se virtualizou (e viralizou de vez).

É deveras interessante que esteja muito fácil escrever e divulgar seus textos hoje. De modo geral, todo leitor tem, em seu íntimo, o sonho secreto e milenar de ser um escritor. Escrever é uma arte. O formato do aplicativo permite que "olheiros" de editoras possam garimpar talentos potenciais. Tudo bem. Mas o garimpo é difícil. Muito difícil. Extremamente difícil! Desesperadoramente!!! Enfim, isso é um problema dos garimpeiros, né? Não é disso que eu quero tratar hoje.


A questão é que notamos alguns vícios comportamentais bastante típicos entre escritores e leitores do Wattpad.

Um deles é uma mania bastante irritante: o aspirante a escritor resolve começar sua masterpiece no próprio Wattpad. Então ele (ou ela) vai publicando os capítulos e, conforme a audiência, muda alguma coisinha aqui ou ali. Se não tiver muitos seguidores e comentaristas, perde a motivação e nem publica mais nada. Cômico. Só não é pior que os leitores que chegam a fazer ameaças ao escritor lento que não atualiza seu clássico. Problema que seria resolvido de forma indolor se a pessoa simplesmente escrevesse o seu livro antes de pensar em publicar qualquer coisa referente a um material que ele nem sabe se vai concluir.

Outro problema bem sério é escrever dentro do próprio Wattpad, sem qualquer tipo de revisão. A primeira escrita, sabemos, nunca é primorosa, a não ser que estejamos diante de algum gênio. E do jeito que o texto é escrito, publicado será. Desastroso, quase sempre.

Também me parece problemático quando o autor ou autora não consegue sequer dar nomes para seus personagens. Alguns chegam ao ponto de pedir sugestões no Facebook. Risível.

Percebo, ainda, livros que não passam de diálogos. São páginas e mais páginas somente de conversas entre os personagens. Não há descrição, não há narração. Não há saco para ler tanta conversa chata.

Stephen King, o autor de livros de terror mais conhecido da atualidade, lançou um livro chamado On Writing (Sobre a Escrita). Ele dá zilhões de dicas para iniciantes. Uma delas é que, se você não passa de 04 a 06 horas diárias lendo e escrevendo, nem deveria tentar ser um escritor. Claro que é um tempo muito longo, principalmente para quem trabalha ou estuda, mas adaptações podem ser feitas. O passo inicial para qualquer escritor é... a leitura. Sem leitura, meu filho, esqueça.

Há uma dificuldade notável nas descrições, também. Se você, querido escritor, não consegue descrever uma cena de uma forma ao menos razoável, invista seu talento em outra coisa. Assim como conhecimentos ao menos intuitivos de gramática e ortografia (conquistados principalmente com muita leitura) são fundamentais. Outra dica preciosa é ler não apenas livros bons. Leia livros ruins também (se você não consegue diferenciar um livro bom de um ruim também... repito, vá fazer outra coisa...). Então, bora ler 50 Tons para saber o que você NÃO pode fazer! :D

Televisão, internet, celular... caras! Isso tudo é o inferno na Terra, para quem escreve, ou pretende escrever. Se você não sente mais tesão escrevendo do que brincando no Whatsapp, meu amigo... isso não é pra você. Entenda: ser escritor não é fácil, não é simples. Demanda estudo e muita dedicação, como qualquer outra atividade em que você pretenda se destacar. Eu, por exemplo, sempre quis ser músico. Quando peguei um violão, em pouco tempo soube que meu lugar na música é o de mero ouvinte. Ponto. Sem traumas.

Peguei um trecho aleatório de um livro postado no Wattpad, que já tem vários capítulos publicados, para análise (não citarei obra nem autor, claro):


"Mais um dia comum e humilhante naquele inferno que as pessoas chamam de escola, eu coloquei uma calça jeans e uma blusa azul, minha cor favorita a propósito, ao contrário do que todos pensam o bulliyng não me deixou depressiva ou algo parecido, eu era uma garota alegre e extrovertida porém muito tímida, as pessoas nem me conhecem do jeito que eu realmente sou, só me julgam pelo que acham que sou."

Comecemos pelo começo: "Mais um dia comum e humilhante naquele inferno que as pessoas chamam de escola". Até aí, embora a construção não seja das mais brilhantes, nenhum grande problema. Mas, na sequência, temos: "...que as pessoas chamam de escola, eu coloquei uma calça jeans e uma blusa azul, minha cor favorita a propósito, ao contrário do que todos pensam o bulliyng não me deixou depressiva ou algo parecido...". Bom, a primeira vírgula já aparece deslocada. Um ponto caberia melhor. Ponto-e-virgula também resolve a questão. Depois, "minha cor favorita a propósito". Sem vírgula, ligação direta. Ficou estranha e desconectada a expressão "a propósito". Depois, outra vírgula e entra em um assunto diferente, sem conexão com a roupa ou a cor da calça. "Todos pensam" também fica um tanto genérico. "Todos" quem? Logo depois, outro erro crasso: "uma garota alegre e extrovertida porém muito tímida". Bom, decida-se: ou é extrovertida ou é tímida. Aí, vem outra vírgula, outra oração sem conexão direta com a anterior, e pronto. Eu não jogo o livro fora porque ele não é físico, mas faria com o maior prazer.

Entenderam agora por que Stephen King sugere que leiamos livros ruins? Porque é a forma mais eficaz de evitarmos erros, ao menos os mais comuns.

Bom por hoje é isso, galera. Boa sorte aos novos escritores, mas, principalmente, ânimo e fôlego para encarar muito estudo. Desligue a TV, jogue o celular na parede, delete sua conta no Facebook, feche a porta e se interne. E só saia de lá depois de escrever pelo menos 3 mil palavras...



                                                     

Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Oie, Fabiano! A escrita realmente precisa de muita prática e esforço. Não é um processo simples e eu como uma aspirante sei que não faço metade do que poderia para aprimorar minha escrita, mas ler livros ruins realmente ajuda!

    Tenho um caso na estante que possui vários erros, a premissa era boa e a ideia para a narrativa seria bem interessante, mas ver coisas acontecendo de duas formas diferentes, ou então de detalhes que não se encaixavam na linha temporal ou na realidade proposta pela autora, foram uma provação. Um exemplo, na história um crime foi cometido e na cena do crime uma amostra de DNA encontrada. Até ai, ok! Mas o problema começa quando identificam o dono do DNA usando o banco de dados da policia brasileira... Só que o culpado era um romeno que nunca esteve no Brasil ou que se quer tinha alguma vez cometido algum crime em qualquer lugar. Sendo assim, o DNA dele não devia estar no banco de dados, muito menos no brasileiro. E não teve nenhuma explicação sobre o fato. Ele só aconteceu.

    Moral: aprendi a planejar muito bem o enredo, verificar se faz sentido e revisar mil vezes. Pois erros são aceitáveis, afinal somos humanos, mas errar a cada página é meio complicado de "engolir".
    Letras & Versos

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  2. Realmente, esse do DNA doeu na alma, ahahahaha. É bem por aí, ler livros ruins pode ser péssimo, mas nos ensina bastante eheh. Abraço!

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