Papo na Cafeteria: Livros Nacionais. Ambientações da trama? Não Tão Nacionais Assim.


Então você cansa de ler tantos títulos estrangeiros e resolve optar por um nacional. Escolhe um título que bem aos moldes que você goste, fantasia, suspense, drama, romance, não importa, você só quer se deleitar com uma trama nacional...que acontece em Londres. Epa! "Pera"! Londres?









Literatura Nacional engarrafada ao padrão internacional, mais uma esquizofrenia do mundo moderno? Talvez, há que se esperar muita loucura de uma sociedade que sai de casa para comer comida caseira em restaurante...rs. Mas fato é que a glamourização da profissão de escritor no Brasil, gerou uma leva infinda de autores Chuchu (sem qualquer conteúdo, só bagaço e caroço). Resultado: obras pouco originais, com baixa qualidade de escrita e muitos outros problemas que Fabiano já citou em sua matéria: Mundo Plastificado: A Literatura Como Refém da Estética. Hoje dedico o post à falar de uma delas.


É cada vez mais frequente optar por obras nacionais e me deparar com tramas que se passam bem distante do Brasil, me pergunto: por quê? Talvez um fenômeno provocado por uma lista de leitura restrita, fechada a um único segmento? Quem sabe o alto consumo de cultura Norte Americana e Europeia? Pouco conhecimento dos elementos da cultura Nacional? Presume-se que com a avalanche de lançamentos de títulos estrangeiros no mercado literário hoje, quando decidimos ler algo nacional, estamos procurando pelo que expresse cultura diferente da que se exibe nas vitrines das livrarias, que cá entre nós, se conservassem seus títulos em texto original mais pareceria uma vitrine de outro país.

Veja bem, de forma alguma um autor deve estar engessado, não digo aqui que o mesmo deva escrever apenas sobre seu país de origem. O que levanto em debate é: uma obra bem construída requer ambientação e descrição, suficiente para gerar identificação por parte do leitor. Como aclimatar uma obra em um local do qual não se conhece? Recentemente li um livro em que a trama se passava em Los Angeles. E era isso. Tudo se resumia à Los Angeles, descrição da cidade: Los Angeles, clima: Los Angeles, atmosfera da trama: Los Angeles, ruas em prédios em que tudo acontecia: Adivinha? Era como se o nome da cidade definisse tudo o que eu precisasse saber, causando um esvaziamento de elementos descritivos que tornou impossível conceber o cenário. Notório que o conhecimento do autor se limitava também ao nome da cidade...


Pergunto: e se Eça desistisse de escrever sobre a sociedade Portuguesa em "O Primo Basílio"? Ou se  "O mistério da estrada de Sintra" e "A relíquia", obras do mesmo autor, seriam hoje grandes obras sem que ele tivesse usado suas experiencias adquiridas em viagem ao Oriente Médio? Teria Jorge Amado se consagrado sem a narrativa crítica dos costumes provincianos e a exploração do trabalhador da sociedade que vivia? E até a fantasiosa cidade de Macondo, de García Márquez, conserva elementos que constitui a cultura da sociedade latino americana na criação de seus personagens tipicamente latinos. Melhor nem citar o Rio de Janeiro de Machado de Assis. 

Rua do Ouvidor, 1890.




"A rua do Ouvidor, a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro" (Machado de Assis).Machado cita a rua em muitas de suas obras. É nela que Brás Cubas reencontra Virgília. Bentinho, era um costumaz passeador da Rua do Ouvidor.

Ilustração da cidade de Macondo


"Me sinto Latino Americano de qualquer país, mas sem renunciar nunca a nostalgia de minha terra: Aracataca, a qual voltei um dia e descobri que entre a realidade e a nostalgia estava a matéria prima de minha obra." (Gabriel García Márquez)






Quando o autor aclimata e ambienta sua obra com elementos descritivos dos quais tem domínio e são conhecidos, pelo menos referencialmente, pelo leitor, isso gera empatia, identificação e qualidade de na construção da trama. É o caso de algumas obras nacionais atuais que deliciosamente enveredam por esse caminho. Selecionei quatro delas: 




Spohr, mesmo dedicando-se ao gênero fantástico e ter narrativa com diferentes recortes temporais, ambienta boa parte de sua história no Rio de Janeiro, logo descrições de ruas, prédios e atmosfera da cidade é comum entre as páginas. Para mim se tornou impossível atravessar a Ponte Rio-Niterói, sem imaginar um ser celestial de pé em um dos postes de iluminação do local preparando-se para batalha. Ou conseguir visualizar perfeitamente, um celestial e uma feiticeira contemplando o panorama carioca da Vista Chinesa. Identificação imediata.








A autora ambienta sua história em Santa Catarina, estado onde mora e por essa razão a narrativa de trajetos, costumes locais são muito bem feitos. É possível visualizar os hábitos e rotina da protagonista pela cidade,  não só a partir do que se tem em mente, por ser um Estado nacional, mas também pela ambientação bem feita por Taietti








Em suas histórias sufocantes e envolventes, Montes usa como pano de fundo ambientes conhecido por ele, como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, as ruas e praias da cidade carioca, dando elementos suficientes para composição de cenários pelo leitor, enriquecendo a experiencia de leitura e criando uma ligação maior com a trama.










O enredo de A corte infiltrada se passa em diferentes pontos do território nacional. Embora não muito detalhista em suas descrição de ambientes, Andréa Nunes, cria uma trama muito bem elaborada envolvendo o Supremo Tribunal de Justiça e um mosteiro Zen Budista no nordeste. O vocabulário regional, costumes locais e todos os elementos já firmados em nosso imaginário, são ingredientes que fazem da leitura uma experiencia crível e de grande identificação. 









Longe de minhas pretensões tratar o tema de forma reducionista, tentando promover aqui o apontamento de uma solução, como dito acima, a proposta aqui é levantar o debate sobre esse assunto, que já virou cotidiano na escrita de novos autores, afinal, merecemos livros melhores, tramas melhores, enredos bem elaborados. Merecemos ler nacionais de verdade, autores  mais criativos e originais e menos autores chuchus. Não acham?








Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. Ola Andreza confesso que tenho visto muitos livros nacionais ambientados fora de nosso país, para se escreve é preciso estudar sobre o local e detalhar o livro para os leitores se sentirem lá. Desde que seja bem detalhado e sendo real não me importo em ler livros ambientados em outros lugares. Mas devemos valorizar nosso lindo país temos tantos lugares maravilhosos. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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    1. Acho que esse é o ponto Joyce, idealizar a historia e não cuidar dos detalhes gera prejuízo. Infelizmente tenho visto novos autores sem esse cuidado de pesquisa do qual você ressalta, e claro isso empobrece a narrativa e dá lugar à estereótipos.

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  2. Não chego a me importar com esse detalhe, exceto quando tudo gira em torno de algo que o autor não pesquisou ou não conhece o que acaba influenciando para que talvez a leitura não seja agradável, eu prefiro escrever sobre coisas que conheço, mas o ambiente nem sempre é possível ambientar a história no meu universo devido ao que acontece com os personagens.

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