Mundo Plastificado - A Literatura Como Refém da Estética

Leitoras! Leitores... antes de mais nada, deixo claro que o texto abaixo é de autoria de Fabiano de Queiroz, colaborador deste blog. Não é da "chefe", a Andreza. Portanto, se quiserem xingar alguém, o alvo sou eu, beleza? ehe

Eis aqui, mais uma vez, eu, euzinho, escrivinhando umas tortas linhas sobre um tema absolutamente cabeludo, peludo e remelento:a literatura como refém da estética da juventude moderna, contemporânea, virtual e internética. Os viciados em leitura e livros que tem acesso ao Facebook conhecem bem as tretas e manias dos grupos de leitores. Fotos de estantes, análises de capas, novos "escritores" com histórias cheias clichês indefectíveis e indefensáveis, e segue a vida na estratosfera. As guerras entre fãs de clássicos e contemporâneos, fantasia vs. realidade e por aí vai. Longas histórias! Longos posts. Muitas risadas e tretas intermináveis. Pessoas deixando grupos, grupos dando ban em pessoas. Gente que reclama de pseudo-intelectuais. Gente que reclama de "modinhas". Gente que reclama. Porque, se tem uma coisa que não falta na internet... é gente reclamando. Reclamando de tudo e de todos. Menos de si. Parece que ninguém tem defeito. Só os outros.


Bem, amigos da Rede Café com Letras, amigas e amigos letradas e letrados. Para quem escrevemos, afinal?
Na era tecnológica em que vivemos, com tanta gente acessando a WWW (embora não seja nem de longe a maioria, em termos planetários), temos uma produção midiática extremamente maior do que em qualquer outro tempo histórico. Nota-se isso em praticamente qualquer tipo de arte. Na música, há tantos artistas e bandas que a impressão é que há mais gente tocando que gente ouvindo. É cada vez mais fácil gravar discos, e isso é fantástico, mas não se traduz automaticamente em qualidade. Cinema é mais difícil e caro de fazer, mas também se fala muito na crise criativa, com muitos filmes baseados em livros, remakes e adaptações de quadrinhos. Há menos espaço para o cinema como arte, especialmente nos meios mais comerciais (e não, nem sempre foi assim). A pintura vem perdendo espaço. A fotografia está sendo até, de certa forma, "banalizada".

Na literatura, temos um fenômeno bem semelhante. Cada vez mais gente resolveu que apenas ler não é o suficiente. É necessário escrever. É necessário ser autor. O jornalismo também enfrenta essa situação. Com os blogs, vlogs e afins, nós, que éramos meros receptores de informações, passamos a fornecê-las para quem quiser ler, ouvir ou assistir. O lado positivo é, obviamente, a democratização. O negativo, a ausência absoluta de critérios com que se dissemina todo tipo de informação. Como fazer essa separação? Hoje, é praticamente impossível... mas é interessante notar que muitos produzem para ninguém. Sem audiência, atuam como se estivessem escrevendo aquele velho querido diário. Então, o pessoal anda se especializando em marketing digital. Nos clubes de livros do Facebook, ou no Wattpad, notamos bem essa figura. São muitos autores, cada vez mais. Mas não é necessariamente a competência literária que faz com que esse ou aquele se destaque. É a capacidade de arregimentar pessoas, possíveis fãs, compradores potenciais. Nas leituras que venho fazendo aqui e ali, noto algumas coisas bem específicas: quem é bom de marketing acaba tendo muito mais visibilidade (o que é óbvio), mesmo que a obra em si não vá além do mediano. Também é fácil perceber que há muitas, mas muitas obras, que seguem fórmulas prontas. Infelizmente, não tenho dados estatísticos, mas não é difícil notar que a maioria dos livros trata de romances açucarados, com alguma dose de erotismo, eventualmente, e fantasia/suspense (mesmo sabendo o quão difícil é criar mundos míticos). Nesse novo universo, busca-se a aprovação dos leitores de internet, passando, muitas vezes, ao largo das premiações e concursos tradicionais. São basicamente nichos, criados e reproduzidos pelos viventes que os habitam. Isso merece destaque também, pois há uma quebra paradigmática nesse ponto, já que não há mais a necessidade de receber prêmios importantes para se destacar. O destaque pode vir de outras formas. Popularidade, status dentro do grupo, reconhecimento localizado e, claro, eventualmente a publicação do livro com alguma venda relativamente expressiva, pelo menos dentro do que se entende por expressiva no contexto.

Evidente que isso não são críticas. Estou expondo o que percebo. Também há outros fenômenos bem recentes, como o uso de ghostwritters por algumas editoras mais abastadas, que basicamente "salvam" obras medíocres de novos autores que podem pagar pela publicação. Publicar não é barato. Publicar um texto ruim é menos barato ainda, pois alguém eventualmente fará o trabalho "sujo", de bastidores. Não aparecerá como autor, co-autor ou colaborador, mas será a mente por trás de alguns livros que o pessoal curte bastante hoje em dia. Óbvio que não posso citar nomes... Os ghostwritters não são nenhuma novidade na indústria. De discursos a livros-clichês de bancas de revistas, eles estão por aí há décadas, sem que quase ninguém os perceba. Mas escrever livros inteiros a partir de ideias gerais propostas por novos "autores" me parece um pouco demais. Os mais endinheirados ainda tem a opção de bancar participações em eventos... para falar de livros que sequer escreveram! Muito interessante isso.

Com isso tudo, percebo que a literatura tem se tornado não apenas insossa em sua temática, mas elitizada em seu público. Muitos novos escritores só conseguem lançar porque tem dinheiro para isso, e muitos destes escrevem para pessoas de sua classe social. Assim, temos essa profusão de livros com histórias de casais, com personagens genéricos, brancos, usando nomes estrangeiros, e vivendo em cidades gringas. Há muitas e boas exceções, mas é uma tendência claríssima. O uso de fórmulas prontas é a tônica na maioria dos casos. O grande problema para o leitor de Wattpad é separar o que presta do que é mera repetição dessas fórmulas. Isso, claro, quando o leitor consegue fazer tal distinção. Outro problema mais do que óbvio é a qualidade textual. No Wattpad, especialmente, isso se percebe porque os textos são publicados sem passar antes por revisores. Os erros gramaticais, ortográficos e de concordância costumam desfilar diante de nossos olhos aterrorizados. Já tive a infelicidade de ler livros com erros crassos de sequência, a ponto de não ser possível entender o que acontece na história. Claro que há livros muito bem escritos, e desejo o merecido sucesso a esses autores.

Mais um probleminha: a dificuldade de muita gente em aceitar as famosas críticas. Qual o problema em receber uma crítica e tentar aprender alguma coisa com ela? Caso típico são as brigas entre fãs de algumas sagas, trilogias e escritores(as). Muita gente, notadamente jovens, se queima por seus autores favoritos, defendendo-os insanamente. Não há análise da obra, apenas "treta". A agressividade toma conta da discussão, e o debate morre, muitas vezes sem ter sequer começado. Evidente que, de modo geral, somos leigos e não temos condição de fazer análises técnicas, mas o respeito ao gosto alheio já seria um bom começo na tentativa de evoluir. Entendo também que os best-seller são a porta de entrada para a literatura, na maioria dos casos, mas um bom leitor definitivamente não pode ficar confinado numa bolha de literatura popular, sem querer pesquisar e conhecer material de mais qualidade. Postura que falta inclusive a muitos dos novos escritores, que não vão além e não buscam produzir material verdadeiramente inédito, fazendo mera reciclagem e colagem de ideias.

Enfim... eu acho que há dois fenômenos correndo em paralelo aqui:
1. A internet como propagadora de conteúdo. Cada vez mais gente online, produzindo. Isso é ótimo. Canais de comunicação mais diretos, interação imediata entre artista e "fã".
2. Educação. A educação está cada vez mais disseminada e horizontalizada. Isso é positivo no que tanga ao acesso à informação. Por outro lado, dá uma nivelada natural por baixo. De qualquer forma, não posso me eximir de criticar a dificuldade da educação de massa em tratar de temas culturais. E não me refiro à escola pública, tão somente. Muitos, mas muitos dos novos leitores não são exatamente de classes mais baixas, mas a ausência de qualidade literária e principalmente a frivolidade (ou futilidade) dos temas espanta. Não podemos jamais cair em generalizações, mas me parecem livros produzidos por gente que não tem vivência. Não é só uma questão de leitura. É questão de viver em bolhas sociais e amorfas.

Escrever é uma arte. É dolorosa. Textos não brotam automaticamente. Se você pensa mesmo em escrever (de verdade), estude, desenvolva temas, crie histórias minimamente diferenciadas. Reescreva quantas vezes forem necessárias, a fim de ter um texto mais elegante. Não pense que o trabalho de revisão resolve todos os problemas. A revisão conserta os erros mais grotescos, mas estilo literário é único. Pessoal. E, principalmente, não se venda. Escrever visando apenas lucro não tem nada a ver com arte. Aquele abraço! :D




                                           

Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Onde eu marco pra curtir duas vezes, aplaudir em pé e todas essas coisas???
    Não chego a concordar com tudo e ainda assim eu concordo. isso é complicado não é? Nós temos mais autores do que leitores. Os autores já publicaram 10 livros, mas só leram três até hoje. Isso me assusta. obviamente, que isso não é regra. Tive a oportunidade de conhecer ótimos autores (sejam eles clichês ou não, afinal a arte pode sim ser clichê e única) , mas também tive o desgosto de conhecer algumas coisas....
    Mas esse é um assunto polêmico. O que é bom pra mim, pode ser ruim pra você e vice versa. Mas o respeito nesses casos já é suficiente. Mas o que me incomoda, é a literatura para aquele padrão - homens poderosos, mulheres modelos, ricos, famosos e blá, blá.
    As vezes acho que o papel da literatura se perdeu nos gostos de um autógrafo. Dar e receber autógrafos é bom? É sim, é maravilhoso. Mas pensar, é ainda melhor.
    Um super abraço e parabéns pela postagem
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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  2. Olá Fabiano,

    Antes de tudo, o título da postagem foi perfeito. E concordo totalmente com o que você escreveu neste artigo. Sem tirar e nem por mais nada. Se tem uma coisa na qual eu penso hoje em dia, é com certeza de que forma a Comunicação de Multimeios vêm sendo cada vez mais utilizada de formas boas e ruins (em aspectos diferentes).

    Adorei o modo como você falou do Wattpad. Um ótimo meio de divulgação de livros, mas sem nenhum critério para isso.

    Não tenho palavras para te parabenizar pela escrita. Que de alguma forma você conseguiu ser ético, argumentativo e esclarecedor. Por enquanto, o que posso te dar é apenas um 'Parabéns' e uma nova leitora do blog.

    Abraços e beijos, de uma blogueira que está de queixo caído pelo texto bem trabalhado.

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  3. Como uma pessoa que está usando o blog para escrever livros, eu tento tomar muito cuidado com todas essas problemáticas. Também concordo com muito o que tem no texto, embora eu não esteja assim tão engajada na "literatura de desconhecidos".

    Crazy Old Stories

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  4. Oláá´!

    Gente, parabéns!
    Parabéns e parabéns!

    Faço jornalismo e estou fazendo um trabalho sobre jornalismo online (onde vc cita os blogs, vlogs e tudo mais) e um trabalho sobre publicações literarias, ghostwriter e tudo mais. Adorei seu texto!

    Concordo com muitas coisas principalmente com o estudo do texto. Acho que muita gente escreve sem ter conhecimento, apenas pelo momento sabe?
    Ótimo artigo, parabéns!!


    Beijinhos,
    www.entrechocolatesemusicas.com

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