Literatura brasileira caminhando para a maturidade?

Observando de longe, a impressão é que a literatura brasileira parou no tempo. Os grandes nomes das letras ainda são aqueles que estudamos nos colégios. Os clássicos. Com seus escritos políticos, rurais ou de críticas sociais em sociedades escravagistas. Ou, ainda, grandes dramas de famílias de classe média. Para boa parte da população, é essa a imagem, genericamente falando.

Porém, no entanto, todavia, entretanto, há uma movimentação muito forte na literatura nacional hoje. Temos uma grande quantidade de escritores, e de aspirantes a tal. Há realmente muita gente querendo e sonhando viver dos livros. E, mais interessante, temos hoje um nível de profissionalização que não se via antes. De forma geral, mesmo escritores famosos de outras gerações tinham profissões paralelas. Ou seja, não viviam da literatura. Escritor não era uma profissão. E mesmo assim, quantas obras geniais não foram escritas por gente que precisava trabalhar e se sustentar de outras formas? Claro, é compreensível também, se levarmos em conta que não existiam distrações como Whatsapp, Facebook, joguinhos online e outras tentações sugadoras de nosso precioso tempo!

Várias editoras organizam coletâneas, à procura de novos talentos. A própria Internet facilitou bastante essa busca, pois a interação ocorre de forma mais rápida e pessoal. Claro que ainda é difícil publicar. A maioria dos aspirantes a escrivinhador, se realmente quiser publicar, precisa desembolsar alguma grana ou publicar em sites de livros digitais, onde o autor faz desde a diagramação e a capa, até a divulgação do material. O escritor, hoje, precisa percorrer eventos literários para falar de suas obras, editar vídeos no Youtube para se comunicar com seus leitores potenciais (e reais), e investir forte em material promocional. Enfim, não basta ser escritor. Tem que ter tempo e dinheiro. Até que sua obra seja reconhecida e comprada por alguma editora de médio ou grande porte, que acredite no material efetivamente. Aí é outro papo, e nesse ponto bem poucos chegam. Os tempos são outros...

Mas, e quanto ao conteúdo? O que os novos escritores andam contando? As histórias no meio rural perderam espaço e apelo, por motivos até bastante óbvios. O Brasil é cada vez mais industrializado. A maioria das pessoas vivem no meio urbano. E as histórias do cotidiano das cidades acabaram por se tornar mais comuns. Também há muitos autores de fantasia, que lidam com mundos fantásticos e universos paralelos. Há muito menos foco no Brasil como palco das histórias, também. As histórias estão se tornando mais globais. Curiosamente, outra forte tendência é o uso da primeira pessoa nas obras.

Os romances adocicados são outro tipo de material que continua fazendo sucesso. mas esse, creio, nunca deixou as listas de mais vendidos. A sabrinização da literatura não é uma surpresa. O gênero, com ou sem qualidade, sempre teve espaço cativo, por mais clichês que as histórias sejam, e por mais rasos que sejam os textos. Uma outra tendência do momento é a literatura distópica. Se há não muito tempo a palavra distopia era praticamente desconhecida, hoje se fala nisso como se falava em histórias de detetive ou de faroeste. Os mais velhos certamente lembram daqueles livrinhos de histórias de bang-bang, feitos de papel-jornal, e vendidos em bancas de jornais. As mais velhas também lembram dos livros de séries como Sabrina e Bianca. Clichês e mais clichês. Tanto quanto as revistas de sacanagem que faziam sucesso com a piazada de décadas passadas. Hoje são as distopias! O mundo anda tão insano que ninguém mais parece acreditar muito que o futuro nos reserve algo positivo. Quanto mais trágico e opressivo, melhor. Não é uma crítica. Apenas uma constatação. Tendências são tendências. Talvez daqui uns 15 anos as distopias já tenham saído das listas de mais vendidos e tenhamos outro tema recorrente.

Resumidamente, temos uma quantidade cada vez maior de escritores, e que tendem à profissionalização, embora, devamos reconhecer, a maioria das obras tenha uma linguagem mais coloquial e bem menos densa que os clássicos de outrora. Por um lado, facilita ao leitor. Por outro, perde-se na arte das letras, na forma, na prosa poética tão característica de tantos bons mestres das palavras. Destes, parece que temos cada vez menos. E você? O que acha? :)



Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Olá, Fabiano.

    Então, eu acho que essa popularização de um gênero causa mais livros desse tal gênero. Mas não vejo como ruim de todo, já que penso na literatura como uma redescoberta diária. Pois quem hoje lê romances "sabrinizados" daqui a uns dias ouvirá falar de uma tal Austen ou Brönte, depois poderá acabar lendo sobre uma dama chamada Capitu. E o mesmo pode acontecer com os apaixonados por Jogos Vorazes que conheceram George Orwell.
    Na escrita se perde a complexidade e a beleza do rebuscamento, é verdade. Mas pense bem, já perdemos isso em nossas falas e o que é a língua se não uma eterna mutante?
    Chegando ao ponto dos escritores, hoje eles estão mais especializados em tentar ser vendidos/comprados, mas alguns ainda tem que aprimorar a escrita, que mesmo sendo simples, pode ser bela e envolvente.
    Abraços,
    Letras & Versos

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    1. Perfeita a sua análise, Anna! Gostei muito. Abraço e volte sempre ;)

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