2014, um ano pesado para a literatura (grandes escritores que nos deixaram) - parte 2 de 2

Gabo
Gabriel García Márquez, o Gabo. Colombiano, mago das letras, autor de livros atemporais, traduzidos para pelo menos 36 idiomas. Escreveu marcos da literatura universal, como Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera. Contador de histórias, criou o realismo mágico na literatura latino-americana. Dono de um estilo inconfundível, uma forma de contar a história que é quase uma prosa poética. Um texto bonito, limpo, fácil de ler (e, creio, dificílimo de escrever).


Nascido em 1927, ele nos deixou no último 17 de abril. Falecido aos 87 anos, sofria de câncer linfático desde 1999, e ainda tinha "demência senil", o que o levou a uma dura luta contra a perda da memória. Fim indigno para um dos maiores gênios que a humanidade produziu nos últimos tempos. Ao menos, fica a obra referencial, que fala por si e não deixa lacunas. A melhor forma de homenageá-lo é não o esquecendo jamais.




Outro escritor que nos deixou em 2014 foi Manoel de Barros. O nome é familiar? Pois é, provavelmente você, rara leitora, raro leitor, estudou-o no colégio. Falecido aos 97 anos, ele fez parte de muitos eventos literários, começando lá no Pós-Modernismo Brasileiro. Carlos Drummond de Andrade chegou a considerá-lo o maior poeta vivo do Brasil. Não é pouco. Autor de diversas obras lançadas entre 1942 e 2013, foi muito premiado. Deixo, abaixo, um de seus poemas:



O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


Fechando o post, no dia 13 de julho faleceu a escritora sul-africana Nadine Gordimer. Autora de mais de 30 livros, destacou-se especialmente por suas crônicas compostas de forte crítica social ao regime separatista conhecido como "apartheid". Talvez você não tenha ouvido falar da escritora, mas certamente conhece o apartheid. Lamentavelmente, há pouquíssimo material traduzido para o português. Fica a dica... editores, traduzam-na! São livros essenciais para qualquer um que deseje conhecer não apenas a história recente da África do Sul, mas a própria essência do ser humano.

É isso, piazada. Ótimo 2015 para todos, e esperamos que seja um ano pródigo em grandes escritores! ;)
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