Battle Royale Vs. Jogos Vorazes


Bom, aproveitando que assisti recentemente aos filmes Battle Royale e Jogos Vorazes, resolvi pontuar algumas coisas em relação à polêmica lançada desde o sucesso da série escrita por Suzanne Collins. São comuns as acusações de plágio direcionadas à ela, que convenientemente diz tratarem-se de meras coincidências as similaridades com a obra do japonês Koushun Takami, Battle Royale.







Battle Royale, o romance, lançado em abril de 1999, no Japão, é um dos livros mais vendidos e polêmicos daquele país. Não à toa a polêmica, pois a história é demente ao extremo, com um rio de sangue se desvelando em cada cena, e a morte implacável de vários jovens. Não é um romance adolescente, digamos assim. O filme, dirigido por Kinji Fukasaku, foi lançado em 2000, e quanto à sua qualidade e impacto, basta dizer que ninguém menos que Quentin Tarantino o elegeu como o melhor filme desde sua estreia como cineasta. Certamente, é o filme que ele adoraria dirigir. Além da obra para o cinema foi criado um mangá em 15 capítulos, também de muito sucesso.

A série de filmes Jogos Vorazes, baseado nos livros de mesmo nome, ainda está em andamento, mas trás vários elementos similares à obra japonesa. Alguns, similares por demais, eu diria. Claro que há diferenças gritantes na concepção, também. Battle foi feito para causar um impacto diferenciado, aterrorizante. Um filme para adultos, sem concessões. O sangue se esparrama e pronto. Cru, direto, sem frescuras. Jogos Vorazes, por sua vez, foi escrito para um público jovem, concebido como uma saga (no caso, uma trilogia), algo cada vez mais comum na indústria livresca de hoje, voltada aos novos leitores. Nos filmes, apesar da matança generalizada, há economia de sangue, uma produção visual tipicamente hollywoodiana, com atores impecavelmente maquiados e, claro, um certo clima de romance que surge aos poucos, sendo delineado de forma sutil e sem pressa. Enfim, a autora pega a ideia central de Battle Royale e transforma em uma aventura adolescente.

Collins já afirmou, em entrevistas, desconhecer a obra japonesa. Provavelmente, orientada por agentes e advogados, visto que é um tanto duvidoso desconhecer obra de tal impacto, mesmo na época em que ela escreveu seus livros. Uma pena essa desonestidade intelectual, ainda mais quando sabemos que o próprio Takami comentou que jamais processaria a escritora americana, pois, em suas palavras, "cada livro sempre tem algo novo a oferecer".

E eu concordo com o japonês. Ele escreveu uma história de grande impacto, mas naturalmente utilizou elementos de outras obras aqui e ali. A arte inspira a arte. Collins, apesar de não reconhecer, pegou a ideia central (e vários elementos menores, como as lutas na selva, o monitoramento de localização dos jovens na arena, as chamadas dos mortos, entre outros) e jogou em sua obra. A partir disso, teve a felicidade de ir além, tratando de questões que vão além da matança gratuita e de romances tolos e improváveis. Aqui, fica claro que o verdadeiro inimigo é o sistema político, que usa de sua força para manter a população sob controle. Fala-se em manipulação midiática, coerção, chantagem. Tudo aquilo que está envolto em uma cortina de fumaça, e que muitos nem percebem. Tem mais a ver com a nossa vida real do que gostaríamos de admitir.

Outro ponto que gostaria de destacar é a força da protagonista. Katniss, uma heroína, bem trabalhada pela atriz Jennifer Lawrence, traz uma tendência muito legal de colocar mulheres como personagens fortes. Recentemente, já vimos isso em Valente, Malévola, A Culpa é das Estrelas e Divergente, e Jogos Vorazes exacerba o heroísmo, trazendo uma mocinha guerreira, inteligente, forte e absolutamente segura de si. A escolha da atriz foi fundamental para que essa imagem fosse passada da forma correta.

Enfim, polêmicas à parte, temos duas obras interessantes, tanto do ponto de vista literário, quanto cinematográfico. Uma é mais direta, fetichista, a violência pela violência. Outra foca em questões políticas, amenizando no impacto visual (até para fins comerciais, no caso, mas isso é outra história...). Acusações à parte, e apesar do silêncio patético de Suzanne Collins, acabam sendo obras distintas, e ambos de grande valor, que acabaram atingindo públicos diferentes, em países diferentes. Note-se, também, que a obra de Collins acabou trazendo Battle Royale de volta aos holofotes, o que poderia ter levado o autor japonês a relevar a questão, sabedor de que sua obra teria uma re-valorização a partir do sucesso do produto americano. O típico jogo de ganha-ganha, em que ninguém perde. Os leitores e cinéfilos ganham, com mais opções de entretenimento, e os autores e diretores, por verem seus rendimentos maximizados pela polêmica (eu mesmo acabei assistindo Jogos Vorazes justamente pela curiosidade suscitada pela questão).

Comentários
9 Comentários

9 comentários:

  1. Sou mais Jogos Vorazes :P haha
    http://toobege.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Plágio é sempre uma coisa complicada. Entendo que talvez ela tenha lido e tido uma inspiração, mas é compreensível que não admita, afinal por mais que o autor de BR diga que não vai processar nem nada, a Collins está se protegendo.
    Letras & Versos

    ResponderExcluir
  3. É o que imagino que tenha ocorrido, Anna. :) E obrigado pela visita

    ResponderExcluir
  4. Oii, tudo bem? Nunca assisti a nenhum dos dois :( , eu sei, seu sei, em que mundo eu estou, kkkk
    Essas coisas são sempre complicadas né? Mas sei também que coincidências existem e que nem sempre o que parece é. Como , eu por exemplo, que nem conhecia a história. Mas tem outros casos famosos também, como as aventuras de Pi, que muitos dizem se tratar de um plágio de Moacir, de Max e os Felinos. Nunca li nenhuma das duas obras, mas quero ler, para comparar, já que afirmar, não poderei :)
    Abraços
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bem lembrado, Gih. E no caso de A vida de Pi, o plágio acabou comprovado. O autor do livro, o canadense Yann Martel, chega a citar o livro de Moacyr Scliar no prefácio de uma das edições da obra. A exemplo do japonês, Scliar também nunca quis processar o canadense, que usou a premissa básica da história. Esse, ao menos, reconheceu isso, embora tenha pisado na bola antes, dizendo que estava pegando uma boa ideia de um "mau escritor brasileiro". :P fazer o que né... ehe

      Obrigado pelo comentário e volte sempre! :D

      http://gorpamusic.wordpress.com/

      Excluir
  5. Desculpa , mais nada se compara a Jogos Vorazes :(

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não fique brava! O filme é muito bom, sim! Os livros eu não li ainda rs. Obrigado pela visita

      Excluir
  6. Ah e Suzanne disse que havia perguntado ao seu agente se deveria ler o livro, mas ele negou dizendo que ela deveria ficar de fora daquilo. Inclusive quem já leu 1984 notou a inspiração logo de cara, principalmente no último livro. Koushun não tem mesmo pelo que processar, porque ele mesmo copiou inclusive, uma parte do livro "The Long Walk" do Stephen King, fora o fato de Shogo ser inspirado em Hawk, um dos personagens desse livro. É irônico as pessoas descerem a madeira nos americanos quando um dos livros dos quais eles tanto gostam foi inpirado em um trabalho deles. Um escritor renomado, por sinal. Felizmente Suzanne não importa-se porque ela tinha um objetivo ao escrever a franquia, coisa que os filmes tentaram passar pela tela, embora tenham deixado muita coisa de fora. Ela mesma já disse também que não haverão mais livros da trilogia.

    http://fangfiction.blogspot.com.br/2012/06/suzanne-collinss-hunger-games-vs.html

    Aí está o link da entrevista, sendo que tá todo em inglês!

    ResponderExcluir

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...